Saturday, November 18, 2006

Ladrão dentro da Lei

…”Ladrões dentro da Lei”… a primeira organização mafiosa russa… as coisas que se aprende com uma novela escrita para gente cansada e sem vontade de pôr os miolos a funcionar. Quem diria que este livro lhe traria um ensinamento, pensava Miguel. Daqui passou para a raiva: “se eu queria um livro cor-de-rosa que me distraísse, porque raio me hão-de obrigar a aprender quando eu não quero. Será que nem posso optar por não saber? A ignorância é uma bênção, quem o disse não sei, mas sem dúvida alguém que não era ignorante e tinha pensado muito e sobre muita coisa, útil e inútil, incluindo sobre o drama da inteligência.
Enterrado na cadeira bordeaux, as ligações químicas cerebrais não paravam, embora ele apenas desejasse deixar-se encantar pelo romancezeco-de-livraria-de-vão-de-escada e iludir o seu pessimismo com bonitas de sentenças acerca de quão bom é viver e amar.
Talvez haja uma mística no leste: o ar gélido, a tez lívida…o olhar impenetrável! Há indubitavelmente a mística da questão filosófica a que se resume o processo de maturação: sobreviver dentro da Lei. Aqueles tipos têm de saber muito da vida para existirem dentro de um círculo tão apertado”.
Decidido a não mais deixar-se invadir por questões complicadas, abandonou a cadeira bordeaux para ir mergulhar no sofá da mezanine de onde se veria o pôr-do-sol, caso ele se estivesse a pôr. Estendeu as pernas e pousou os pés ainda descalços, porque isso de usar chinelos de quarto é para mariconços, no mobiliário adequado, a mesa de apoio à mezanine. Cruzou os braços como que em sinal de protesto juvenil sob o jugo da proibição de sair e observou simplesmente o mar, na esperança de coisa nenhuma. Miguel não esperava nada feito.
Miguel era um ladrão dentro da lei dos tempos civilizados, a metáfora perfeita! No âmago da sua excentricidade tentava conferir à sua vida uma qualquer normalidade, para lá das teorias conjecturadas na mezanine acerca da vida, do caminho de deus e das descobertas, sabia que não podia ir até à praça do mundo explicar todas as suas conclusões e convertê-los, aos outros, à sua crença, à religião da Humanidade. Ninguém o quereria ouvir e mesmo que alguém quisesse, muitos não o compreenderiam, ora porque eram os piores dos cegos, ora porque as suas limitações o não permitiam. Na verdade, a grande maioria, ainda que convocada, arranjaria uma qualquer desculpa mundana, como o ter que ir trabalhar para não estar presente. Como se um dia de trabalho não pudesse ser desperdiçado nem para assistir à revelação, mas eles coitados não percebiam, nem Miguel os julgava por isso, condescendia-se… Assim se ia escudando Miguel, para encarreirar com todos os outros, acordar de manhã, apanhar o metro e dizer um bom dia sorridente ao mundo dos normais. Mas o conflito ia estando latente como um vulcão de pedra amarela prestes a derrubar os grilhos.
A Lei moral é a que mais atormenta: porque não posso simplesmente fazer o que quero? Porque me acorrenta a suposta moral comunitária com a qual não me identifico? Assim sou eu: a tentar enganar as leis restritivas dentro da lei, a tentar encontrar o meu lugar ao sol num descampado à sombra, desvios de Miguel que nem se apercebia que dificilmente existiria um descampado à sombra.
Depois destes pensamentos reconfortantes, Miguel voltava ao lado normal da sua vida, mas sempre que se encontrava sozinho, sentia que tinha uma vida paralela, havia um qualquer lugar no mundo onde ele poderia ser ele e em que o percebiam e o recebiam como Messias. Como se a dado momento temporal desta nossa realidade houvesse a possibilidade de dizer as palavras mágicas que lhe abriam a porta para o mundo ao lado onde a mente se elevava sobre o quotidiano desvalorizado. Mundos paralelos, porque como as linhas não se tocam, só ele, Miguel, tinha a possibilidade de com as palavras mágicas construir a ponte que lhe permitia oscilar entre um e outro, mais ninguém podia… ele tinha sido escolhido, porque tinha sido pioneiro na descoberta.
Enquanto estes pensamentos cubistas lhe mordiam o crânio ele ia-se auto-justificando pela sua anormalidade intelectual.
Miguel era difícil. Miguel sabia que precisava de trabalhar para viver e que ninguém lhe pagaria para olhar para as nuvens e pensar sobre o que quer que fosse, a não ser que isso trouxesse dinheiro a esse alguém, o que não era o caso. Miguel não era um brilharete lá na área dele, limitava-se a fazer o que lhe pediam. Fazia estudos de mercado. Nada muito criativo, coordenava uma equipa de campo e era coordenado por um director simpático, positivo e sempre cheio de iniciativas para o bom ambiente no trabalho! Ele ia sorrindo amareladamente… e sonhava com o outro mundo que só ele conhecia… Lá ia ele nesse noite para mais uma iniciativa do departamento de marketing, que uma vez mais culminaria num copo nos meninos do rio, para meninos patéticos e muito pouco idiotas!
Após um árduo dia de trabalho de 7 líquidas horas é recebido de peito aberto o momento alto daquelas vidinhas, o momento em que uma inofensiva matilha abandona o escritório metálico e sai em busca da descontracção proporcionada pelo espírito de equipa estimulado pelo ora-porreiraço-director-ora-treinador-de-balneário. Uma hora a matar conversa com este e com aquela e Miguel já suspirava e ansiava pela sua mezanine, pela possibilidade de se reconfortar na sua varanda intelectual de onde os via de cima e lhes acenava. Mas não, ia ter de ali continuar sob pena de lhe ser carimbado na testa mais um estigma qualquer acerca da sua personalidade anti-social.
Será que não há aqui ninguém capaz de existir verdadeiramente. Até há uns quantos cultores da actualidade, daqueles que devoram jornais semanais, diários, económicos e informativos. Dos que vêem o Canal História, o Odisseia e a Sic Notícias. Dos que estão plenamente informados sobre quem ganhou as eleições no Togo, sobre as cheias nos Camarões, sobre as tender offers no Uruguai, sobre o vencedor do festival da canção na Índia, sobre o Big Brother na Venezuela. Será que não passam de enciclopédias ambulantes, na melhor das hipóteses?
A grande maioria deles sabia mais do Mundo que o próprio Miguel, o ser superior, mas, pensava Miguel, não sabiam trabalhar a informação.
Se o tipo da TVI tinha dito que o Bush é que era, então era isso mesmo, se o da SIC dizia que o Al Gore era o maior, então era mesmo. Conheciam todos os factos actuais e desactualizados, mas não conseguiam pensar acerca deles.
E era por isto mesmo que Miguel, tal como Virgílio no seu momento, cria que eles precisavam de uma aparição.

- Então e tu – questiona-o Gisela, a tagarela – em quem vais votar para ser o melhor português de sempre?
- D. João II, é o som emitido pela cavidade bucal de Miguel, que não tinha investido dois segundos do seu tempo a ponderar essa questão pelo simples facto de se recusar a participar nessas manifestações populistas de democracia, ainda para mais num país em que a democracia ainda não havia sequer atingido a puberdade.
- A sério, porquê?
Como se não fosse evidente o suficiente, pensa Miguel, que teve vontade de responder: sei lá, porque plantou o pinhal de Leiria, ah não, esse foi o D. Dinis, ah, já sei, porque reconstruiu a Baixa, ah não, esse foi o D. José, já sei, porque João é o nome do meu pai e 2 é o meu número da sorte.
- Porque foi o Príncipe Perfeito, ouviu-se dizer.
- Eu – começa a empertigada Daniela – acho isso tudo uma grande treta, ainda vai ganhar a Amália ou o Figo, o que prova as nossas limitações.
- Já estás tu outra vez contra o sistema – espicaça-a Rui, o engatatão.
- Não é isso, – continua Daniela – nós mal sabemos o que é votar em consciência, as pessoas não sabem porque votam quando se trata de escolher um qualquer governo do que seja e depois vamos todos votar no melhor português. Primeiro ensinem o que é o voto, o que é o dever de votar, o dever de estar informado e depois brinquemos com os votos e aí até podemos votar no par de sapatos mais bonito de todos os tempos ou no equipamento de futebol mais sexy de sempre. Até lá não participo nessas manifestações popularuchas…
- … de democracia, ouvir-se Miguel dizer.

Sete cabeças se viraram para ele, como que surpreendidos por ele ter adivinhado o fim da frase de Daniela, ao que Miguel se pretendeu desentendido.

- Não me digas que também achas isso – interroga-o Rui, desta vez verdadeiramente curioso com a coincidência ou sintonia de pensamentos e ligeiramente enciumado por não ter sido capaz de compreender Daniela e ser ele próprio a acabar as frases dela, assim como dois namorados apaixonados dos tempos modernos.
- Eu não acho nada – responde-lhe Miguel já arrependido por a sua desatenção face às regras de socialização o ter levado a entrar naquela discussão, quando tinha conseguido passar o primeiro teste com aquela resposta brilhante!

Assim morreu a conversa dos portugueses médios acerca dos melhores portugueses, mas não sei sem que Miguel tivesse olhado de soslaio para observar Daniela a quem nunca tinha prestado atenção, mas que acabava de a despertar e a prendia, sem que ela própria se desse conta.
Ora aqui está uma pessoa que tem qualquer coisa a ver comigo, mesmo ao meu lado… Será que ela também tem um mundo só dela de onde vê o outro lado do cubo multicolor, que para os outros não passa de bum quadrado azul?
É Daniela quem reintroduz a conversa na mesa, mencionando, para espanto de Miguel, o seu envolvimento profundo em certo projecto piloto de um grupo itinerante de discussão acerca de perspectivas de vida, que vai circulando por várias partes do país e acolhendo os diferentes interessados, mas sempre coordenado por ela mesma e um grupo de amigos seleccionados, como ela explicou, como se fossem carne de porco para fazer fiambre.
Hum… Quem diria que ainda encontraria almas pensantes num sítio como este… e ela até parecia uma pessoa como todas as outras. Será que ela estaria interessada em… nahhh… ia ser uma seca para ela.
Assim se perdia Miguel nos caminhos do conflito, numa Faixa de Gaza interior em que qualquer ser neutral seria bombardeado pelos dois lados, naqueles sítios do mundo onde até há canibalismo militar, que é como quem diz, até se mata o seu. Enquanto isto, Daniela continuava a entreter a mesa com as suas histórias originais, das quais ela se orgulhava e sem perder pitada do mundo dos comuns. É aqui que Miguel se interroga se vale a pena ser uma ilha paradisíaca que todos querem visitar mas ninguém lá quer viver ou se é preferível ser o pequeno paraíso onde, para lá do paraíso, há uma base de razoabilidade que os faz ser uma comunhão.
Vale a pena ser artista reconhecido postumamente? Ser lembrado, admirado e invejado pelo mito? Ou é melhor opção abdicar de me transformar num criador de ideias orgulhosamente só e viver a normalidade e o, já também normal, conflito interior dos anormais que decidem que a revolta é para perdedores e portanto engrenam na grande máquina, hoje em dia, da globalização. Eu nem uma arte tenho… a minha arte é pensar, como a do Gabriel. Aquilo que eu melhor faço é mesmo ter ideias, não para grandes quadros, nem para grandes filmes, nem para grandes músicas, nem para grandes poesias. Só grandes ideias…

- Miguel, Miguel… Cu Cu!
- Hum, diz… digam – indaga Miguel repentinamente puxado de volta a este mundo e vendo as mesmas sete cabeças todas à sua volta, com a diferença que estava sentado e as cabeças assentavam em corpos, cujas pernas estavam estendidas verticalmente ao chão.
- Vamos embora ou ficas aqui a conversar com os botões que não tens?
- Vou, vou, claro.

Assim se levanta Miguel, sem saber se zangado consigo por não ter sido capaz de manter a atenção na conversa do grupo, se simplesmente confirmando mais uma vez que a sua existência é a mesma de um ladrão dentro da lei.

Saturday, November 11, 2006

Desconcertante Colunável

Ao contrário das bonitas historietas de amor, estes dois só se cruzam porque desviam a sina. Aliás, se há uma bifurcação ela sempre irá para a esquerda e ele para a direita; se há um lugar à sombra e um lugar ao sol, ela sempre desejará a sombra e ele o sol; se é preciso optar entre o IP e a auto-estrada, ela quer o IP e ele a auto-estrada; se a escolha é praia ou campo, ela clama pela praia e ele pelo campo.

- Frederica - dirige-se-lhe Inês - acabo de ver o Berto!
- A sério? Merda!
- Ele não me pareceu surpreendido por me ver.
- É natural, afinal foi por isso que ele cá veio, não é? O grave disto é que ele vai pensar que vim ter com ele depois daquela conversa ao telefone, mas pior, ele vai agir como se nos tivéssemos encontrado por acaso, vai mencionar isso mesmo, mas plenamente convicto de vim aqui ter com ele e por isso não terei hipótese de dizer que nós já cá estávamos, até porque vou parecer uma adolescente que não quer admitir a paixoneta pelo miúdo mais giro da turma. Devia ter-lhe dito que nós estávamos no Condestável quando ele me ligou…

O menu jurídico à sua frente provoca-lhe um ligeiro sorriso pela sua própria piada não partilhada: das Águas, dos Espumantes, das Cervejas, das Cervejas sem álcool, dos Licores.

- Indecisa?
- Hum… Não… Sim… Bom… Olá Berto!
- Já viste… o destino sempre a unir-nos.
- Pois - responde uma Frederica pouco atenta à sua própria resposta, mas sem desejar prender-se naquelas coordenadas - Então e novidades, desde há bocado?
- Comprei um carro!
- Ah, sim… Nas últimas cinco horas?
- Estava indeciso entre o mini e o 307. O mini é um carro cheio de personalidade, mas tem tanto disso que me cansou antes de ser meu. O 307, enfim, carimba-nos logo com aquele ar de macho do tunning, que não me agrada, mas, olha, se fosse mulher era bem pior, é que numa mulher um 307 quer sempre dizer: “Eu ando na noite!”. No fim optei pelo Mercedes Classe A.
- Pois, fizeste bem - afirmou uma Frederica quase honesta, como se não pensasse que Berto tinha comprado uma carapaça de tartaruga com rodas.
- Mas e tu, o que achas do Colunável?
- Nada, não acho nada. Acho que te devias ir embora, acho que não devias ter vindo, acho que isto não é justo para ninguém e acho que também já te tinha dito que esta relação-iogurte já tinha passado da validade. Agora aproveito e digo-te também que está azeda! – é o que lhe responde uma Frederica, tão surpreendentemente para ele como para ela, assumindo o papel da personagem desconcertante:
- Oh, minha querida Frederica, de onde vem tudo isso? Nós estamos apaixonados, ou estou enganado? - interroga-a Berto enquanto lhe faz uma festa no pescoço, da qual ela parecia estar à espera.
- Não, Berto, começa ela pausadamente, eu não vou ser a outra o resto da vida. Não vou dizer que foi um erro, mas que começa a sê-lo.
- Mas sabes que eu não posso deixar a Pati, ela é a minha Branca de Neve.
- E eu devo ser o anão Rezingão, ou serei a Bruxa má? Queres um conselho? Toma conta das maçãs!

Do you think I’m sexy? Do you think I’m sexy?” grita ardentemente a engenhoca tecnológica de ponta de Berto, que enquanto se afasta deixa cair um: “Espera um bocadinho que eu volto já.” “Não é preciso”, grita-lhe uma Frederica irritada com a displicência, enquanto deambula interiormente numa comparação entre o quadro azul à sua frente e o seu estado emocional, “Aquilo podia ser a minha fotografia emocional, se não fosse azul. As minhas emoções oscilam num fundo entre o amarelo, o laranja e o castanho, quentes mas sem ser em brasa, mornas, são mornas. O quase-círculo branco, podia ser o epicentro emocional, de onde brotam ideias hesitantes sem destino, das quais muitas aterram em terra de ninguém.”

- Whisky, com gelo, se faz favor.

- Onde é que nós íamos, minha querida?
- Na parte em que tu e a Pati eram felizes para sempre na vossa casa de bonecas cor-de-rosa para onde tu vais voltar agora.
- Oh… Não me vais fazer essa desfeita, pois não? Vim aqui para te ver!
- Mas eu não quero! Parece que tens dupla personalidade? Afinal com quem é que eu tive aquela conversa? Com o teu irmão gémeo?
- Ah… Mas eu não aceito o fim! Olha, vamos lá fora! Vi um sítio perfeito para estarmos os dois!
- Não percebes mesmo…
- Claro que percebo!
- Óptimo, então…
- Anda comigo! Vem!
- Desisto!


- Berto, acorda!
- Bom dia, boneca!
- Acorda rápido, precisamos de falar, muito a sério.
- Ok, vamos lá então. Adoro quando falas a sério…
- Isto tem de ter um fim. Já sabemos que não vamos sair deste pesadelo. Esta tem de ser a nossa despedida. Não posso investir num fundo perdido! Esta relação não vai evoluir e não vejo nenhuma razão para investir numa coisa que vou perder. É como dizia a minha avó, quem aposta sabendo que ganha é ladrão, quem aposta sabendo que perde é estúpido. E eu não quero ser estúpida.
- Sim, tens razão. Estou a ser egoísta, não posso querer-te só para mim.
- Não desconverses, sabes bem que a questão não é essa.
- Olho para nós e vejo-nos há dez anos, vejo-te como a minha menina de há dez anos atrás! E és tu!
- Tu estás a reviver esse filme e o problema é esse mesmo. Estás a viver na tua imaginação um passado, que não é o presente, mas ages como se fosse. Acabou o “Alf”, começou o "Family Ties". Eu já não fumo cigarros escondida atrás de um carro, já não precisas de me ensinar como se pede um safari-cola sem ter ar de menina, eu bebo o meu próprio whisky e, adivinha, até sei que gosto do irlandês e não do americano. Não podes reaparecer com o anelar enfeitado e dizer: aqui estou eu como dantes.
- Mas tu sabes que eu sempre estive apaixonado por ti.
- Deve ter sido por isso que te casaste. A sério, eu não te censuro o casamento ou a Pati. Poderia ter feito o mesmo, mas não estaria aqui se o tivesse feito. Censuro a tua falta de honestidade contigo mesmo. Arranjaste uma boa justificação para conseguires para encarar o espelho, que te liberta das correntes da consciência. E por isto tudo eu tenho de ir… Diz-me que me percebes, que concordas comigo, que vais cumprir…
- Sim, sim e sim.

- Inês, vamos beber qualquer coisa?
- Daqui a meia hora no Colunável.

Já no azulado Colunável, Frederica espera Inês. Uma Frederica aliviada por finalmente ter deitado fora o iogurte azedo enfrenta a luz branca do telemóvel exibindo a negro a mesma palavra das últimas vezes:

“BERTO”

Antes de atender Frederica ainda teve tempo de desabafar um: “Estás a ver, é isto! Ainda hoje falei com ele!” com Inês.

- Olá Boneca! Onde páras?
- Em nenhures. Pensava que ainda hoje tínhamos combinado que…
- Espera, está aqui a policia, não desligues.

“BERTO”
Chamada desligada

“BERTO”
“BERTO”
“BERTO”
3 chamadas não atendidas

“BERTO”

- Boneca, então, não querias falar comigo? Desculpa ter desligado, mas…
- Sim, já sei, Berto, a policia.
- Exacto. Bom ia convidar-te…
- Convidar-me??? Nós falámos há três horas e tu estás a convidar-me???
- Que tal um bom vinho e um prato de queijos?
- Devemos ter as linhas trocadas, porque a nossa conversa não é a mesma.
- Queijos num recanto da Lisboa antiga. Romântica Graça… que me dizes?
- Não vai dar.
- Amanhã?
- Beeeerto! Chega! Estás a gozar comigo?
- Tu sabes que não, sabes que eu preciso de te ver e que não posso estar sem ti. Desculpa-me Boneca. A sério, deixa-me pedir-te desculpa.
- Não há aqui nada para desculpar.
- Anda lá! Vai ficar tudo bem!
- Mas é isso mesmo que não pode ser. Não pode haver nada, nem bem nem mal. Será que a nossa conversa foi um sonho?
- Vemo-nos no Colunável.

“BERTO”
Chamada desligada

1 mensagem recebida
“BERTO”
Não te vou deixar fugir, Boneca!

Saturday, November 04, 2006

O Avô não vem hoje?

- Mãe, o avô não vem hoje? Ele disse que íamos fazer um campeonato de xadrez!
- Não, querido, o avô hoje não vem.
- Porquê?
- Porque… Sabes… quando as pessoas ficam velhinhas, assim como o avô, o coração fica cansado de bater todos os dias e um dia pára. Quando o coração pára, as pessoas morrem, ficam como se estivessem a dormir. Foi isso que aconteceu ao avô e é por isso que o avô não vem.
- E quando é que ele acorda? A avó não pode chamá-lo?
- Não, este sono é especial, porque é para sempre.
- E se eu gritar muito alto nos ouvidos do avô? Assim: ACOOOORDA! O avô não acorda?
- Não…
- Mas o avô tem muito sono?
- Não, mas o coração do avô já bateu muitas vezes durante 69 anos. Começou a bater mais devagarinho e depois parou.
- Não podemos pôr pilhas?
- Não, meu amor, o coração não funciona a pilhas, se não todos nós vivíamos para sempre. Podemos ir ajudando o coração a durar mais tempo e é por isso que tens sempre de comer a sopa, mas há um momento em que já não podemos fazer mais nada. Quando o coração pára não podemos pô-lo a funcionar outra vez…
- Se eu fosse grande inventava um coração especial, como o meu robot, para o avô não ter de dormir para sempre…
- O avô ia gostar de saber isso e não te preocupes porque o avô vai estar sempre a pensar em ti, meu querido.
- Mas afinal se o avô pode pensar, porque é que ele não vem jogar xadrez? O avô dizia sempre que para saber jogar xadrez só é preciso saber pensar! Eu achava que ele estava a dormir... Afinal onde é que está o avô?
- Agora o avô está em casa.
- Posso ir lá ter? Ou vão pôr o avô numa caixa de madeira como aquela múmia do Canal Panda? Vão enrolá-lo em papel higiénico? Ele depois vai assustar meninos numa casa escura onde há bichos? Vamos poder brincar às múmias? Mãe, embrulhas-me em papel higiénico?
- Não querido, isso tudo são histórias da televisão. Quando as pessoas morrem ninguém as enrola em papel e não se transformam em múmias.
- Então o avô vai ficar a dormir para sempre na cama dele ao lado da avó?
- Não… Quando as pessoas morrem normalmente há uma cerimónia…
- O que é uma cerimónia?
- É uma ocasião especial. Quando alguém morre, as pessoas que gostam muito de quem morreu, vão à igreja onde há um padre que reza para que o avô vá para o céu. Nessa altura todas as pessoas se vão poder despedir do avô.
- Mas o avô não se despediu de mim, Mãe! Ele podia ter vindo dizer adeus antes de ir dormir.
- Não podia, meu querido. O avô não sabia que o coração dele ia parar.
- Mas se o avô está a dormir porque é que as pessoas vão lá? Ele não vai falar pois não?
- Porque a seguir nunca mais ninguém vai poder ver o avô. A seguir o avô vai para o cemitério. Sabes o que é o cemitério?
- Sei, é aquele sítio onde há umas casinhas pequeninas e brancas que parecem de brincar.
- Isso mesmo, é nesse sítio que o avô vai ficar para sempre. E as pessoas que gostam muito dele vão à igreja para mostrar que gostam muito dele, antes de ele ir para o cemitério.
- E ele fica lá sozinho?
- Fica, lembra-te que é como se ele estivesse a dormir.
- E ele não tem frio?
- Não, querido, o avô já não tem frio, nem calor, nem sede, nem fome.
Olha, lembras-te de quando o Tweety morreu? Tu gostavas do Tweety e o coração dele parou. Quando tu acordaste o Tweety não se mexia e nós enterrámo-lo no jardim e pusemos uma pedrinha por cima. É isso que acontece também quando as pessoas morrem…
- Está bem. Posso falar ao telefone com a avó?

- Avó?
- Sim, querido neto, como estás tu?
- Estou triste porque o avô nunca mais vem jogar xadrez comigo e ele tinha dito que íamos fazer um campeonato a sério, com pontos e tudo. Agora tenho aqui o quadro que o avô comprou para pormos os pontos, mas não posso pôr os pontos porque não sei quantos pontos ia marcar o avô. O avô devia ter avisado!
- Ele não sabia que isto ia acontecer, por isso não podia ter avisado. Tu sabes que o avô gostava muito de ti e ele nunca faltaria ao campeonato se pudesse escolher. Mas o avô não escolheu que o coração dele ia parar, ninguém escolhe!
- O Tweety também não escolheu?
- Não, querido.
- Mas a mãe comprou-me o Pinqui quando o Tweety morreu. Vamos arranjar outro avô também? Quero um que saiba jogar xadrez, porque nem todos sabem, o avô do Quico não sabe, foi o Quico que me disse. Eu até pensava que todos os avôs sabiam jogar xadrez!
- Não, querido. Os avós não se arranjam. O avô é teu avô porque é o pai da mamã. Nós só temos um pai e uma mãe. Quando tu tiveres um filho, o papá e a mamã vão ser avós do teu filho para sempre. Não se pode trocar por outro!

- Mãe! Mãe! Mãe!
- Sim, Pepe! O que se passa? Tiveste um sonho mau?
- Sim, muito mau. Sonhei que eu estava a dormir e tu me tinhas posto dentro de um caixa de cartão, naquelas casinhas de brincar que há no cemitério. Depois eu acordava e não sabia onde estava, mas estava lá o avô ainda a dormir para sempre. Depois eu saía e vinha para casa com uma senhora velhinha que estava lá ao pé da casa branca e quando eu chegava dizias-me que pensavas que eu tinha morrido!
- Oh meu querido, que sonho tão mau!
- Mãe, tens a certeza que o avô não está só com muito sono?
- Sim, querido, tenho a certeza.
- Ficas aqui hoje a dormir comigo?
- Sim, fico.
- Mãe…
- Sim…
- Amanhã posso ir dizer adeus ao avô?
- Sim, podes.
- Ele não vai responder?
- Não, querido, não vai. Mas no teu coração o avô vai sempre responder porque tu sabes que se ele pudesse te ia dizer que gosta muito de ti.
- Mãe… só mais uma coisa? Porque é que a avó da Magda ainda não morreu? Ela é mais velha do que o avô!
- Porque não há uma idade certa. Os corações não são todos iguais… são parecidos mas não são iguais, uns batem mais tempo que outros.
- Como as pilhas do urso Teddy?
- Mais ou menos…
- Vou sonhar com o avô, está bem?
- Está, querido!

- Mãe, o avô nunca mais vai jogar xadrez, pois não?
- Não…
- Eu acho que o avô ia gostar de jogar xadrez se pudesse, por isso vou deixar o cavalo lá na casinha do avô, era a peça preferida dele. Não faz mal que ele não saiba. E vou levar o rei, que é o que eu mais gosto, para me despedir do avô e depois ponho-o aqui ao pé do Teddy. Acho que o Teddy não se vai zangar comigo porque eu já lhe disse que o avô vai dormir para sempre e que eu vou ter saudades do avô. Assim sempre que olhar para o rei penso no avô, mas também vejo o Teddy.
- Acho que o avô ia gostar muito…
- E mais uma coisa… Olha aqui o quadro que o avô tinha comprado para nós.
- O que escreveste no quadro?
- Os pontos!
- Ah…
- O avô ganhou-me, vês?
- Estou a ver, sim…
- Como o avô nunca mais vai poder jogar xadrez eu decidi que o avô ganhava, só que ninguém lhe pode dizer que é a fingir, é só para o avô ficar contente, para ele pensar que ganhou o último jogo que nós fizemos. E se ele perguntar que jogo é este, nós dizemos que ele é que não se lembrava e ele vai acreditar, porque o avô às vezes esquecia-se das coisas, ele dizia que era porque já estava cansado. Ele vai pensar que se esqueceu mesmo, mas vai ficar contente porque ganhou o jogo.
- Parece-me uma óptima ideia…
- Olha, e mais uma coisa… quero que ponhas o quadro ali em cima do armário dos peluches, virado para cima.
- Mas ali tu não o vês nem o consegues tirar.
- Pois, mas vê o avô porque está mais perto do céu!

Saturday, October 28, 2006

Mimi da minha vida

Hermano mergulha no sofá de couro com dez anos, que ainda conservava o cheiro a pele verdadeira, que ele tanto apreciava, liga a televisão e concentra-se em mais um episódio CSI Miami, ainda com as lágrimas a perturbarem-lhe a visão.
Cinquenta anos, é isto afinal! Mais de metade da vida sem ser vivida. Uma personalidade orgulhosa e calma, quase apática, era do que o acusava a ex-mulher e provavelmente as namoradas de quem não se lembra. Nunca tinha experimentado drogas, nem conduzido com os copos, nem tinha sido expulso de uma aula. A única coisa radical que tinha feito era ter aberto o primeiro bar existente na ilha de São Miguel. São Miguel estava já distante da sua mente. Inteligente e com queda para os números tinha ido para Lisboa estudar a engenharia civil e daí construído um modo de vida simpático, nem de mais, nem de menos. Hermano estava sempre no meio, afinal junto à virtude.
Cinquenta anos feitos, amigos presentes, é certo, mas a amizade aos cinquenta não é a amizade dos vinte. Uns casadíssimos que se negavam a ver a mentira em que viviam, mas ele não, ele conseguia estar sozinho, até porque aí o povo sempre tinha tido razão.
Cinquenta anos é uma boa meta, mas já dizia o Tó de São Miguel, um homem não devia passar dos quarenta. Hoje Hermano comparara um perfume, CK One, diziam que tinha um cheiro jovem, ele não gostava particularmente da acidez do aroma, mas a funcionária da perfumaria garantira-lhe que era jovem e ele ainda queria ser jovem, mesmo não o tendo sido quando o era.
Há uns tempos a filha, já criada, tinha-lhe perguntado porque é que agora ele usava camisolas de gola alta, e ele tinha respondido que mudara de opinião. E mudara, afinal essa é uma roupa jovem. Quando se é jovem não se pensa nisso.
Tinha casado com quem queria casar e tinha-se divorciado quando o desejara. Tinha tido os dois filhos desejados, criados por uma boa mãe e que não era má mulher, mas aos 30 quer-se tudo. Ele tinha tido tudo, sem aproveitar grande coisa.
Este era um ponto de viragem, pensava ele. Mas a apatia do costume impedia-o de se mexer do sofá onde agora estava submerso.

Intervalo do CSI, perfeito!

- Rosária, sou eu, o Hermano.
- Sim…
- Desculpa ligar a esta hora, precisava de falar contigo… com alguém. E és a única pessoa que tenho.
- Estás muito estranho… mas estou a ouvir-te.
- Olha, tu achas que eu sou má pessoa?
- Não, não acho. Mas de onde vem esta conversa agora?
- Estava aqui a pensar. Tenho cinquenta anos e…
- Oh Hermano, desculpa, esqueci me do dia dos teus anos. Desculpa. Sabes como é o trabalho, os miúdos…
- Não, não é nada disso. Quer dizer, não foi por isso que te liguei. Estava a pensar que tenho cinquenta anos e não tenho nada. Tenho uma casa e um carro, a minha empresa, dois filhos que não vi crescer, uma ex-mulher que já se casou com outro…
- Não vais recriminar-me outra vez pois não? Acho que já tivemos os nossos momentos de acusações mútuas, não achas? Foste tu quem quis o divórcio, não tenho a culpa de que te tenhas enganado.
- Eu não me enganei. Eu quis o divórcio e foi o melhor para nós. Nem eu o sabia no momento, mas tu sabes… eu não nasci para ser casado. Não é disso que queria falar-te… Eu queria só falar com alguém e na verdade tu és a mãe dos meus filhos, a única mulher que verdadeiramente amei e portanto a que melhor me conhece. Nunca deixei de estar sozinho mesmo estando contigo e sei que a culpa era minha e não era sequer uma culpa era só uma razão. Mas hoje eu gostava de ter alguém comigo, alguém, só alguém… Tu tens o Filipe, ele gosta de ti e trata-te bem, tens os nossos filhos que eu nunca soube compreender.
- Oh Hermano, mas tudo isso é assim há já tanto tempo, que é que se passa hoje?
- Nada, só gostava de ter por perto alguém. Não pedia uma mulher especialmente inteligente, especialmente bonita, especialmente bem sucedida, especialmente bem-falante, especialmente rica. Só alguém que aqui estivesse, para me por a mão no joelho e dizer que está tudo bem.
- E tu ias acreditar nisso? Que estava tudo bem?
- Não, o papel dessa mulher seria convencer-me disso…
- Espero que saibas que mais difícil de encontrar reunidas numa mulher todas as qualidades que referiste, é encontrar alguém no mundo, homem ou mulher, que te arranque da solidão em que te enfiaste. Não precisas de ninguém que te alegre, que te faça pensar positivo, tu és assim. As tuas angústias são as mesmas de sempre, e só hoje te dás conta delas porque até hoje andaste a escudá-las em problemas vários: ora o casamento, ora o divórcio, ora o casamento outra vez, ora os miúdos, ora a escola do Tito, ora a faculdade da Magui, ora o dinheiro, ora a casa, ora o carro. Hoje que nenhum desses problemas existe, a verdadeira questão veio à tona.
- Estás a ver, tu percebes-me. Tu podias ser a pessoa que me põe a mão no joelho e me diz que está tudo bem.
- Podia, mas não sou. Há muito tempo que nada nos une a não ser os miúdos e uma sólida amizade dos anos em comum, mas é só isso mesmo.
- Mas é mesmo só isso que eu procuro.
- Tu não podes estar bem…
- E não estou… Adeus Rosário…
- Hermano, relaxa. Olha, vê o CSI, já perdeste um episódio, mas vai dar outro. Isso vai distrair-te a cabeça.
- Sim, tens razão, ouviu-se Hermano dizer ao mesmo tempo que desligava a televisão.

Hermano pegou nas chaves e saiu de casa. No Champagne alguém lhe serviria uma bebida forte.

- Boa noite.
- Boa noite.
- Faça favor, a Mimi indica-lhe uma mesa. Mimi, indica uma mesa ao cavalheiro.

- Olá, eu sou a Mimi. Deseja tomar alguma coisa?
- Sim, escolha a Mimi.

Mas que raio, porque é que esta tipa há-de escolher o que eu vou beber, pensava Hermano, enquanto via Mimi avançar em direcção ao bar bamboleando as ancas. Há uns anos, não sairia daqui sem ti Mimi…

- Cavalheiro, aqui tem a sua bebida, especialmente para clientes especiais.
- Oh Mimi, mudei de ideias. Não quero a sua bebida. Diga-me lá uma coisa, quanto recebe por um privado?
- Desculpe? Eu não faço privados!
- Deixe-se de coisas. Responda-me.
- Depende, mas certamente que para cavalheiros rudes o preço aumenta, afirmava Mimi, enquanto se sentia atravessada pelo olhar cortante do gerente que se tinha apercebido do mau ambiente e a passos largos vinha até eles.

-Cavalheiro, há algum problema? Aqui a Mimi, às vezes é um bocadinho insubordinada.
- Nada, nada.
- Se precisar de alguma coisa faça o favor de dizer.
- Hum, hum.

-Então Mimi. Pago-lhe 500 euro para mandar a sua coleguinha trazer-me um Porto e ficar aqui a conversar comigo. Para me dizer que está tudo bem…
Enquanto o Porto era encomendado e a raiva de Mimi surgia em crescendo na sua face ruborizada, Hermano continuava… reparou que lhe disse quinhentos euro?
- Sim, afirmava Mimai sem saber onde este tarado pretendia chegar.
- Sabe, Mimi, as unidades de medida não têm plural, tal como a moeda. Deveríamos sempre dizer: cinco quilómetro em português correcto. Claro que se eu disser isto numa reunião de negócios sem explicar porquê me tomam por patego em vez de erudito. Por isso digo-lho a si, pode ser que passe a mensagem.

Quando Hermano terminava frase apercebe-se de que Mimi está impaciente e pensa que esta é mais uma sem vontade de o perceber. Ele também não quer quem o perceba…

- Mimi, quer casar-se comigo? Viver comigo?
- Desculpe, mas o cavalheiro deve ter bebido demais, vou chamar-lhe um táxi.
- Não Mimi, eu não preciso de um táxi, preciso de alguém que me diga que está tudo bem, percebe?
- Sim, dizia Mimi, enquanto pensava no oposto.
Olhe, continuava ela, tenho aqui uma coisa que o vai animar, enquanto tirava da sua bolsinha um espelho de maquilhagem, um saquinho verde, uma tampa de uma Molin e o cartão de entrada no Champagne.
- Eu não tomo drogas Mimi.
- Mas hoje vai tomar, uma vez não são vezes.
- Eu nunca tomei nada.
- Hoje é o seu dia, a seguir não vai precisar que ninguém lhe diga que está tudo bem, porque verá que está mesmo.

Hermano retraído e sem jeito, temendo fazer má figura, lá inspirou por dentro da tampa Molin, sem que o corpo tivesse reagido grandemente e sob o olhar expectante de Mimi, que lhe punha gentilmente a mão no joelho e dizia: já vai ficar tudo bem…
Aquele gesto e aquela frase a que Mimi não dera a menor importância despertaram os sinos cerebrais de Hermano, que ouvira o que queria ouvir de forma espontânea.

- Mimi, aqui estão os quinhentos euros, perdão, os quinhentos euro, que lhe prometi em troca dessa frase. Está dispensada da minha companhia.
- Cavalheiro, eu não o disse pelos…
- Sim, pois, eu sei. Mas vá, vá à sua vida.
- Mimi agarra os quinhentos como se fossem a própria vida e some-se no escuro das cortinas aveludadas, perturbada, acende um cigarro longe das vistas curiosas dos clientes habituados a vê-la sempre sorridente e com bom astral.
Hermano beberica o seu Porto com um sorriso nos lábios na convicção de que aquele momento mudara a sua vida e que no dia seguinte estaria tão feliz como naquele momento em que nem estava com os copos. Calmamente, como era seu timbre, liberta o cadeirão e sai deixando um sorriso largo ao porteiro. Entra no seu Golf preto, TDI, não era um qualquer, e depois de uma operação STOP, chega a casa… Jerry Seinfeld, grita na Sic Comédia: “No more soup for you!”, enquanto o episódio se despede e Hermano, apesar disso, satisfeito porque vai ficar tudo bem, se entrega ao MTV Live, para uma noite de eighties by himself

Thursday, December 08, 2005

Sometimes

Sometimes late at night
I look into the darkness and see your smile
It looks like the SMILE itself
Looks like God's smile if we could see him
Looks like God's smile if he existed

Sometimes late at night
I look into the darkness and see your face

Sometimes late at night
I look at my left side and you're there
That's when I konow happiness is just right there
I tried hold you and you skipped through my fingers

This night I've caught you
and now
I'll never let you go

Assinado:Teu Micróbio

Saturday, November 19, 2005

Curta-Metragem

Primeira Imagem: relógio do Cais-do-Sodré a marcar as 5.
Avenida de Ceuta, Chuva Torrencial Invernosa: o Cenário.
Acção
: Mulher em carro da moda (a definir pelo argumentista) avança a alta velocidade, fuma meia DavidHoff, a chuva molha o interior do carro, chegando a humedecer-lhe a face (filmar o interior do carro). Ela olha em frente (imitar ceguinho), com ar compenetrado, concentrada aparentemente na condução. CUT
(O carro é filmado de trás) O carro desliza num lençol de água, ela estremece e faz um ar apavorado. Como que acordando do transe apercebe-se que não sabe onde está, olha em volta (filmar interior do carro). Eixo Norte-Sul (filmar a placa de entrada), Saída Sete-Rios. Ela abana a cabeça e fala consigo mesma: não posso sair aqui, aqui não. Ela tinha pavor ao som dos elefantes e sabia que ainda estavam acordados. CUT
O carro segue em frente, em direcção à Avenida das Forças Armadas, ali a Entre-Campos, ela aí sabia onde estava, era a sua zona…
Vira no semáforo conhecido à esquerda, pressente que ele lhe sorriu. CUT
Hospital Santa Maria à esquerda, à esquerda outra vez e Praça de Espanha.
O taxista não arranca, ela faz-lhe sinais de luzes no momento exacto em que cai o amarelo, ele arranca, ela fica. Um barco que se perde…
Ela esquece-se de que está na via pública e pensa… O sinal passa a verde, amarelo, encarnado e verde de novo (filmar o semáforo sem que ela apareça). CUT
Ela está encostada a uma árvore de pé. Sorri, sorri, sorri… É o fim por escolha própria, quem tem essa possibilidade? De escolher o momento? (é o que lê no cartaz branco a negro). CUT
Vindo da esquerda corre um indivíduo, passa galopando com uma máquina fotográfica na mão que apanha de cima de uma pedra granítica posicionada a dez metros dela. CUT
Quando ele deixa de interferir com a trajectória visual dela em linha recta, ouve-se um click e ao mesmo tempo uma luz encandeante solta-se do objecto.
Ela foge rapidamente olhando para trás uns segundos que lhe permitem ter a percepção de que um vulto encarnado está em queda livre. CUT
Ele arranca o rolo da máquina. CUT
Ela já está a entrar na A5.
Demasiado distraída segue o caminho. (filmar silenciosamente o carro em andamento pelo flanco esquerdo; dar ideia de que vai a 40 km/h;). Chega a um prédio, estaciona, sai do carro, entra numa habitação. CUT
(filmar a casa com luz natural) Ela acorda e já tem o Jornal n.º 1 em cima da mesa. Olha-o distraidamente. CUT
O ladrão é filmado frente a ao Quiosque Carlos Dias e lê atentamente o jornal n.º 2.
Nota: capa do Jornal n.º 1 da Manhã Seguinte: Uma fotografia escura, onde ao fundo se vê uma mancha encarnada desfocada, tirada em andamento mais rápida que a velocidade do objecto fotografado. OBJECTO VOADOR NÃO IDENTIFICADO?
Nota: capa do Jornal n.º 2 da Manhã Seguinte: ALEGADO SUICÍDIO EM LISBOA. GERAÇÃO PROZAC?

Sunday, October 09, 2005

Mais e Mais e Mais

- Só temos esta.
- Não faz mal, eu tenho aí.
-Toma, estás a precisar.

Momento de profunda inspiração, seguida de expiração profunda. "Come as you are, as you were, as I want you to be", soa como ruído de fundo prazenteiro.O apocalipse está perto.

- A Terra vai explodir!!! A Terra vai explodir!!! I see dead people! I see dead people!
- You are the devil! Devil!

Uma noite quente pelos dias de Outubro, o céu estrelado bem visível de uma varanda. Uma tal combinação astrológica que indiciaria uma noite romântica a dois, um qualquer ele e uma qualquer ela abraçados a ver a Lua e as estrelas... Mas os astros enganaram a Terra, o clube da Ginja estava reunido. Copos partidos, alcool no chão, sopeiras feitas de papel, personagens do imaginário, um colchão insuflável e um cobertor... E olhos diabólicos!

O Bibi e a vítima encontram-se. O culpado nega a culpa, diz-se inocente, só lhe perguntou as horas... e qual era o melhor caminho. A vítima está perturbada, fala lentamente, tem frases desconexas. Acusa o Einstein de ter descoberto a gravidade, deixando o Newton às voltas com a maçã na tumba. Shakespeare é chamado à quadratura: Ser ou não ser, eis a questão! A advogada diz que a culpa é da sociedade, como quem nada aprendeu ao longo de cinco anos, como quem não se preocupa com o El Niño ou os incêncios ou o jornalismo tendencioso da TVI, como quem aceita o que está mal sem contestar. Uma leiga...

A causa desconhece-se e o processo será arquivado. Mas há factos: Gonçalo, o sentimentalão, discursa para a posteridade em frente a uma câmara. Fala da importância do amor, da vida, da amizade e daquele momento em particular. É O MOMENTO, a partilha de lágrimas e sorrisos, como se fossem siameses. É um momento catártico, acompanhado por todos que se unem com ele, no Nirvana.

Pedro é um Sting em Nova Iorque, um outsider com pensamentos abstractos. Critica as pré compreensões, as repressões, os rótulos a que chama, agressivamente, de estigmas.

- O problema está nas pré ideias que as pessoas fazem, n devia haver estigmas.
- As pré concepções são apenas a mente a trabalhar. Se és por natureza optimista vês o desconhecido com curiosidade, queres torná-lo conhecido. Se para ti o copo está sempre meio vazio, tens medo do desconhecido, partes do pressuposto que é mau. Ainda que aceites que pode não ser mau, o risco das consequências negativas é sempre maior que o proveito que pensas poder tirar caso tudo corra bem.
- Mas porque é que as pessoas não pensam sempre que pode ser bom o que não conhecem? Porque é que se afastam do que desconhecem?
- Está na natureza humana.

A miúda mantem-se invisível e deixa apenas o som invadir-lhe os sentidos. É nesse momento que ela repara que o céu está estrelado, mas até podia estar mexido! Um encanto de sintonia cósmica!
Tomás levanta-se para atender o telefone, é a mãe. Ele e a miúda deitam-se em cima da cama, ela filma aquilo que poderia ter sido um sketch humorístico, que depois vê transformado em registos de som, à la Branca de Neve. Perdem-se as expressões faciais e os olhares mortiços.

-Pois, pois é.
(mãe fala)
_ Pois, é isso. Achas que sim?
(mãe fala)
- Ah é?Realmente...
(mãe fala)
- Não, vou-me deitar.

Apenas a mente deturpada tem os registos gráficos.
A pedido dela deixam-se levar por Talamasca e uma bola de feira vertebrável e um cubano à mistura. Gonçalo deixa que a sua mente o conduza para o desconhecido que também ele temia, enquanto a miúda e Pedro se deitam a seu lado (lado, a lado, a lado). O som assemelha-se ao mais puro Mozart! Pedro acorda em sobressalto cheio de adrenalida desejando atirar-se da varanda onde estavam os quatro havia horas, sentia que não havia limites para ele, era imortal ou então lá em baixo estava uma rede que o iria amparar. Ja iria salvá-lo... A miúda acorda com as vibrações de energia negativa, e grita algo importante, mas ele não consegue ouvi-la. Ele deixa a casa ao abandono, foge, corre descendo as escadas, a porta fica aberta... Mas niguém se apercebe! Tomás entra noutro campo dimensional, a miúda e Gonçalo sentem-se a viajar lentamente e apercebem-se de Pedro que há muito corria em volta dos carros estacionados, como se fugisse de algo sem sair do sítio. Os pensamentos circulares transformam-se em passadas circulares. A miúda sente as suas costas algo afiado e ouve uma voz: isto é um assalto, se te mexes eu mato-te. Tomás nada viu, dormindo. Gonçalo distante no pensamento e também de costas observando Pedro nem repara na presença alheia. Ela não fala, não se mexe. Ele pede-lhe o dinheiro e ela não sabe onde está. Lembra-se subitamente que a porta está aberta e não sabe quantas pessoas estão em casa, pensa rápido mas o seu corpo está paralisado. A mente avança e o corpo não cumpre. Ela procura coragem, mas não encontra, sabe o que quer mas não sabe como fazê-lo. Ela tem noção de que ele vai falando em murmúrios junto ao seu ouvido mas não consegue fazer a tradução para uma frase, parecem somente palavras desconhecidas ditas rapidamente. O seu canal auditivo parece simplesmente receber o som supersónico emitido pelo pc. Repentinamente como que acordando de um momento de transe ela decide agir, e no momento olha à sua volta: Pedro continua a correr já bem mais longe, Gonçalo simplesmente fixou um ponto no céu, talvez uma estrela, e deixou-se por ali ficar. Por fim, olha para Tomás esperando vê-lo ainda dormindo, mas ele tinha os olhos abertos como se há muito tempo tivesse assistindo àquele espectáculo de terror. Mas não, ele estava apenas a tentar perceber quem era aquela pessoa, lançou-lhe um olhar calmo, como quem lhe diz que não se preocupasse, que ia ficar tudo bem. Numa perfeita sintonia de movimentos Tomás ergue-se e a miúda vira-se, o que pareceu assustar o intruso que ambos tentam imobilizar e a quem tentam retirar o objecto acutilante. O cretino safa-se, qual macaco saído da selva com agilidade inumana e sem palavras correm ambos atrás dele. Por esta altura já Pedro tencionava voltar acasa e está no momento a entrar no prédio, acaba por ser Pedro, quem sem saber de nada o detém, como se tivesse sabido desde sempre que estavam em perigo. Gonçalo, que entretanto voltara à realidade, já tinha chamado a polícia embora se mantivesse inerte na varanda entre os estilhaços de copos. Foram os heróis da noite!

Calmamente, mais acordado voltaram à varanda onde tudo tinha começado e quando o pânico passou resolveram brindar aos quatro e a Ja que os tinha salvo e que certamente estava entre eles, e como prova de honra repetiram o ritual de invocação desta vez em silêncio cada um consigo a ponderar a vida. Em conjunto fizeram uma daquelas promessas vãs de se tornarem melhores pessoas, mas acima de tudo de serem leais... Até começarem a pensar que a vida está mesmo por um fio muitas vezes e que vale a pena agarrá-la e ir sempre mais longe!

- Isso Shakespeare pensou, mas não disse. O que ele disse foi: Não há melhor remédio para o amor se não amar ainda mais!