Saturday, September 24, 2005

Vodka - Coragem

Rita, a escritora, acabava de entregar o seu mais recente exemplar ao Francisco. Era um pequeno romance, aquele no qual mais realidade e ficção ela havia conseguido reunir até então. Um conjunto de pequenos e irrisórios factos pessoais, muito espaçados no tempo, mas todos conjugados em apenas duas personagens e num só espaço. Encontrou-lhe um fim que, ainda que previsível no contexto, era de todo imprevisível porque aquelas condições dificilmente se reuniriam. Havia naquele texto também um pouco dos seus desejos irrealizáveis, que o eram, não porque inatingíveis, mas porque quando neles pensava, não sentia que fizessem sentido se se tornassem reais, como aqueles desejos de feijoada às 4h da manhã que ninguém pratica. Como aquilo que cada um de nós gostava de ter coragem para fazer mas não faz e até adivinhamos as consequências nefastas que isso poderia ter, como desejar ir à Lua, ter o convite e não aceitar. Às vezes concretizar sonhos não depende só de quem os sonha e é muitas vezes convicção comum que os outros intervenientes necessários não estariam interessados em contribuir. E se estivessem até nem haveria coragem para concretizar, e por artes mágicas houvesse um shot de vodka – coragem o efeito seria a mágoa, a desilusão ou a simples destruição de um sonho que apenas existe porque o é! A história de Rita era mais uma em que os mitos caem em que a galinha da vizinha era melhor que a dela!
Rita sonhava com o director de edições desde o dia em que o vira pela primeira vez, sonhava como é possível a uma mulher adulta e madura de 30 anos. Em momentos de descontracção, à laia de laracha, lá ia relatando mais um olhar que lhe tinha lançado sem que ele se apercebesse. Rita ria de si própria e da sua falta de sorte no Amor. Dizia que ele era o seu sonho, um pouco como o Amor do poeta a uma imagem: quanto menos real e menos passível de alcance melhor era o poema.
Luís era bem sucedido, com mulher e filhos que ostensivamente expunha em cima da secretária e uma gigante aliança de ouro luzidio visível da Lua, qual Grande Muralha da China. Um pai dedicado, um profissional carrancudo dotado de um mau génio apetecível e um humor mordaz.
Com base nestes pensamentos pecaminosos Rita tinha escrito o seu romance, nascido de um pequeno facto real mas morto com muito ténues pontos de contacto com a realidade. Rita começou a sua história com uma banalidade: o envolvimento emocional e unilateral, como ela gostava de lhe chamar, de uma directora comercial com um administrador.
Uma semana depois de entregue o livro nas mãos de Francisco na Mil Estórias, o assistente de edição, Rita recebe à uma da manhã uma chamada no telemóvel. Era o Dr. Luís. Rita estremecera. Porque estaria o Mau – Feitio – Mor a ligar-lhe àquela hora?
- Rita, está sozinha?
- Sim, boa noite, Dr. Luís.
- Preciso de estar consigo. Estou a chegar a sua casa.
- Mas… Dr….
E a chamada caiu. Rita volta a ligar-lhe e ninguém atendia, até mesmo quando do lado de fora da sua porta já se ouvia um toque idêntico ao do Dr. Luís, enquanto simultaneamente a sua campainha soava. Sem mistério, era o Dr. Luís que antes de lhe dirigir a palavra já a beijava como se sempre tivesse desejado tê-la mas só agora se tivesse soltado das amarras. Rita estava indecisa entre viver o momento como um sonho ou um pesadelo, como se houvesse uma opção racional a fazer. Rita dizia-lhe que parasse mas não o afastava. Queria ser controlada, mas não tinha a certeza se era assim… Ele só agia como se não pensasse em nada. Rita olhava pela janela e via um grande C branco no céu…e fê-la pensar subitamente no seu romance “Os Lunáticos”. Será que ele o havia lido? Será que ele tinha percebido? Rita sentia que sem querer tinha escrito o futuro. O Dr. Luís tinha caído da Lua e aterrado na Terra.
Rapidamente ela escorraça o Dr. Luís da sua moradia, sentia que queria estar a sós com a Lua. E dez minutos foram o bastante. Rita abandona a Lapa imediatamente em direcção à Fontes Pereira de Mello, onde fica a sede da Mil Estórias e irrompe pelo gabinete de Francisco onde no fim de uma pilha encontra o seu manuscrito tal como da última vez em que o vira, quando ali o deixara. Ainda ninguém tinha olhado para ele como, aliás, o seu bom senso e os costumes do comércio literário o diriam. Rita retira-o sem pensar nas consequências, aquilo nunca poderia chegar ao Dr. Luís. E se era suposto escrever o seu futuro, então fá-lo-ia mas exactamente como o desejava. Se os mitos alimentam o poeta, ela não era poeta.
Ao chegar a casa Rita começa a escrever num ápice, afinal era fácil, era só sonhar, mas desta vez o sonho acabava bem e com sorte transformava-se na realidade, ou a realidade num sonho. Rita pega numa caneta e esboça a sua história, para mais tarde a desenvolver. E assim reza ela:
Carlos já tinha decidido: era aquela a mulher que ele queria! Ela fazia demasiada falta, mas faltava-lhe a tal coragem de quebrar as regras de conduta do orgulho. Tinha atirado com tudo como se fosse o que mais desejava há 20 anos de casamento falhado, quando eram apenas uns meses de relação. Não maravilhosa, mas com potencial, como ele gostava de dizer. Tinha agido num impulso precipitado de uma conversa acalorada. Helena fugia-lhe ou parecia que fugia, parecia tudo o que ele não queria, quando ele até sentia que ela o desejava, ou não estaria ali.
A dois km de distância Helena acordava em mais uma manhã dolorosa com as lágrimas prestes a invadirem o mundo. Pensava nele, no que ele era, no quanto custava. E decidia mais uma vez (repetia este ritual a cada 24 h que passava) que tinha que aceitar o facto de Carlos não querer estar com ela. Uma conversa atabalhoada cheia de mal entendidos, numa má altura tinha-o levado ali. Helena sentia que se lhe tivesse dito que ficasse que ele teria ficado, que ele só queria mais uma prova, mas ele queria sempre tantas provas. Será que não era evidente? Ao mesmo tempo, quando descia à realidade sabia que aquilo era o que ele tinha querido, se ele visse aquele fim como um acto impulsivo teria voltado atrás. Ele tinha posto um ponto final e sentia-se bem com isso. Ela tinha vontade de lhe ligar, de ouvir a voz dele, de relembrar a que é que ele sabia, de o sentir e sabia que não o poderia fazer, não podia porque não tinha sido ela a chegar à conclusão que não mais o queria, mas ele. Se ele tinha chegado aí poderia bem fazer o caminho inverso. E doía… Doía porque a última frase tinha sido: “É definitivo, devolve-me a minha chave!” Aquela maldita chave!
Carlos pensava numa forma de falar com ela, como sempre, um pouco ignorante nestas matérias tenta ser criativo, mas tudo o que lhe ocorre é levá-la a jantar e tê-la rapidamente de volta. Carlos liga-lhe e ela atende com uma voz trémula de quem é surpreendida pelo Coelho da Páscoa, diz-lhe simplesmente que precisa de falar com ela. Vai buscá-la a casa às 23h, não era possível jantar, demorara demasiado tempo a pensar. Ele põe-lhe uma venda nos olhos pedindo-lhe que não a tire e leva-a ao Bar das Imagens ali ao Castelo onde ela entra mais feliz que da primeira vez que lá havia estado. Onde têm uma longa conversa sobre o quanto significam um para o outro, o quanto foi dolorosa a separação e onde fazem promessas de não mais se separar, porque é por isso que existem almas gémeas. Dali seguem ainda nessa noite até Coimbra, Hotel Astória, quarto 309, que desta vez estava vago.
É ali que voltam a tomar-se nos braços um do outro como se nada mais importasse, como ele a havia tomado já, como ela já se havia deixado tomar.E também desta vez a bola redonda no céu os espiava. Ela tinha de volta a chave mais importante...

7 Comments:

Blogger Filipe de Arede Nunes said...

Quero em primeiro lugar agradecer as honrosas palavras que me deixaste... significam mais para mim do que podes imaginar!
Em segundo lugar... mais uma vez magnifico, estupendo, iluminado.
A possibilidade de escrevermos o futuro, de o alterarmos e o fazermos à nossa imagem e de acordo com o nosso conforto.
Personagens estranhamente reais, ambientes fenomenais.
Brilhante... simplesmente brilhante!

5:58 PM  
Blogger DiDuarte said...

n tens nada a agradecer, a vantagem de conheceres alguem c mau genio e saberes q as poucas palavras simpatikas q te dirige sao extremamente honestas! gostei mm mto dakele teu texto, acima de td pq me identifico c ele!
Obrigada por passares!

6:12 AM  
Blogger Filipe de Arede Nunes said...

Confesso que esperei a semana toda pelo fim-de-semana, não apenas pelo obvio, mas acima de tudo porque achava que ias escrever. Vou desanimado... escreve!
Ah! Continuo a agradecer, e sim... de facto, um elogio vindo de ti, tenho por certo que é sentido!

4:19 PM  
Blogger funafunanga said...

Já só li este texto umas semanas depois de ter sido escrito, e é o melhor texto teu que já li. E olha que no meio de tantos contos fascinantes, começa a ser difícil, porque colocas a bitola muito alta!
Um shot de vodka, o sonho comandando a vida, o jogo totalmente aberto, sem artifícios, sem esquiva, sem vergonha. O que mais se pode querer?

3:25 PM  
Blogger DiDuarte said...

podemos querer não saber nada e não ter este poder para podermos ficar agrdavelmente surpreendidos, para termos a certeza que nos amam pos nós pps, para podermos ir sempre mais além do que sonhamos!

2:17 PM  
Anonymous Anonymous said...

Excellent, love it! Femdom castrstion Adopex meridia onkine pjentermine prescription viagra cal Scrabble two and three letter words 1994 dodge pickup coil security systems The best antidepressant for weight loss direct empire heater vent dodge r Sauna outdoor Internet conferencing solution Opalescence teeth whitening trays Massive bbw tits Lexus sc400 tire wear Stationery back grounds

9:45 PM  
Anonymous Anonymous said...

Enjoyed a lot! film editing schools

12:45 PM  

Post a Comment

<< Home