Mais e Mais e Mais
- Só temos esta.
- Não faz mal, eu tenho aí.
-Toma, estás a precisar.
Momento de profunda inspiração, seguida de expiração profunda. "Come as you are, as you were, as I want you to be", soa como ruído de fundo prazenteiro.O apocalipse está perto.
- A Terra vai explodir!!! A Terra vai explodir!!! I see dead people! I see dead people!
- You are the devil! Devil!
Uma noite quente pelos dias de Outubro, o céu estrelado bem visível de uma varanda. Uma tal combinação astrológica que indiciaria uma noite romântica a dois, um qualquer ele e uma qualquer ela abraçados a ver a Lua e as estrelas... Mas os astros enganaram a Terra, o clube da Ginja estava reunido. Copos partidos, alcool no chão, sopeiras feitas de papel, personagens do imaginário, um colchão insuflável e um cobertor... E olhos diabólicos!
O Bibi e a vítima encontram-se. O culpado nega a culpa, diz-se inocente, só lhe perguntou as horas... e qual era o melhor caminho. A vítima está perturbada, fala lentamente, tem frases desconexas. Acusa o Einstein de ter descoberto a gravidade, deixando o Newton às voltas com a maçã na tumba. Shakespeare é chamado à quadratura: Ser ou não ser, eis a questão! A advogada diz que a culpa é da sociedade, como quem nada aprendeu ao longo de cinco anos, como quem não se preocupa com o El Niño ou os incêncios ou o jornalismo tendencioso da TVI, como quem aceita o que está mal sem contestar. Uma leiga...
A causa desconhece-se e o processo será arquivado. Mas há factos: Gonçalo, o sentimentalão, discursa para a posteridade em frente a uma câmara. Fala da importância do amor, da vida, da amizade e daquele momento em particular. É O MOMENTO, a partilha de lágrimas e sorrisos, como se fossem siameses. É um momento catártico, acompanhado por todos que se unem com ele, no Nirvana.
Pedro é um Sting em Nova Iorque, um outsider com pensamentos abstractos. Critica as pré compreensões, as repressões, os rótulos a que chama, agressivamente, de estigmas.
- O problema está nas pré ideias que as pessoas fazem, n devia haver estigmas.
- As pré concepções são apenas a mente a trabalhar. Se és por natureza optimista vês o desconhecido com curiosidade, queres torná-lo conhecido. Se para ti o copo está sempre meio vazio, tens medo do desconhecido, partes do pressuposto que é mau. Ainda que aceites que pode não ser mau, o risco das consequências negativas é sempre maior que o proveito que pensas poder tirar caso tudo corra bem.
- Mas porque é que as pessoas não pensam sempre que pode ser bom o que não conhecem? Porque é que se afastam do que desconhecem?
- Está na natureza humana.
A miúda mantem-se invisível e deixa apenas o som invadir-lhe os sentidos. É nesse momento que ela repara que o céu está estrelado, mas até podia estar mexido! Um encanto de sintonia cósmica!
Tomás levanta-se para atender o telefone, é a mãe. Ele e a miúda deitam-se em cima da cama, ela filma aquilo que poderia ter sido um sketch humorístico, que depois vê transformado em registos de som, à la Branca de Neve. Perdem-se as expressões faciais e os olhares mortiços.
-Pois, pois é.
(mãe fala)
_ Pois, é isso. Achas que sim?
(mãe fala)
- Ah é?Realmente...
(mãe fala)
- Não, vou-me deitar.
Apenas a mente deturpada tem os registos gráficos.
A pedido dela deixam-se levar por Talamasca e uma bola de feira vertebrável e um cubano à mistura. Gonçalo deixa que a sua mente o conduza para o desconhecido que também ele temia, enquanto a miúda e Pedro se deitam a seu lado (lado, a lado, a lado). O som assemelha-se ao mais puro Mozart! Pedro acorda em sobressalto cheio de adrenalida desejando atirar-se da varanda onde estavam os quatro havia horas, sentia que não havia limites para ele, era imortal ou então lá em baixo estava uma rede que o iria amparar. Ja iria salvá-lo... A miúda acorda com as vibrações de energia negativa, e grita algo importante, mas ele não consegue ouvi-la. Ele deixa a casa ao abandono, foge, corre descendo as escadas, a porta fica aberta... Mas niguém se apercebe! Tomás entra noutro campo dimensional, a miúda e Gonçalo sentem-se a viajar lentamente e apercebem-se de Pedro que há muito corria em volta dos carros estacionados, como se fugisse de algo sem sair do sítio. Os pensamentos circulares transformam-se em passadas circulares. A miúda sente as suas costas algo afiado e ouve uma voz: isto é um assalto, se te mexes eu mato-te. Tomás nada viu, dormindo. Gonçalo distante no pensamento e também de costas observando Pedro nem repara na presença alheia. Ela não fala, não se mexe. Ele pede-lhe o dinheiro e ela não sabe onde está. Lembra-se subitamente que a porta está aberta e não sabe quantas pessoas estão em casa, pensa rápido mas o seu corpo está paralisado. A mente avança e o corpo não cumpre. Ela procura coragem, mas não encontra, sabe o que quer mas não sabe como fazê-lo. Ela tem noção de que ele vai falando em murmúrios junto ao seu ouvido mas não consegue fazer a tradução para uma frase, parecem somente palavras desconhecidas ditas rapidamente. O seu canal auditivo parece simplesmente receber o som supersónico emitido pelo pc. Repentinamente como que acordando de um momento de transe ela decide agir, e no momento olha à sua volta: Pedro continua a correr já bem mais longe, Gonçalo simplesmente fixou um ponto no céu, talvez uma estrela, e deixou-se por ali ficar. Por fim, olha para Tomás esperando vê-lo ainda dormindo, mas ele tinha os olhos abertos como se há muito tempo tivesse assistindo àquele espectáculo de terror. Mas não, ele estava apenas a tentar perceber quem era aquela pessoa, lançou-lhe um olhar calmo, como quem lhe diz que não se preocupasse, que ia ficar tudo bem. Numa perfeita sintonia de movimentos Tomás ergue-se e a miúda vira-se, o que pareceu assustar o intruso que ambos tentam imobilizar e a quem tentam retirar o objecto acutilante. O cretino safa-se, qual macaco saído da selva com agilidade inumana e sem palavras correm ambos atrás dele. Por esta altura já Pedro tencionava voltar acasa e está no momento a entrar no prédio, acaba por ser Pedro, quem sem saber de nada o detém, como se tivesse sabido desde sempre que estavam em perigo. Gonçalo, que entretanto voltara à realidade, já tinha chamado a polícia embora se mantivesse inerte na varanda entre os estilhaços de copos. Foram os heróis da noite!
Calmamente, mais acordado voltaram à varanda onde tudo tinha começado e quando o pânico passou resolveram brindar aos quatro e a Ja que os tinha salvo e que certamente estava entre eles, e como prova de honra repetiram o ritual de invocação desta vez em silêncio cada um consigo a ponderar a vida. Em conjunto fizeram uma daquelas promessas vãs de se tornarem melhores pessoas, mas acima de tudo de serem leais... Até começarem a pensar que a vida está mesmo por um fio muitas vezes e que vale a pena agarrá-la e ir sempre mais longe!
- Isso Shakespeare pensou, mas não disse. O que ele disse foi: Não há melhor remédio para o amor se não amar ainda mais!
- Não faz mal, eu tenho aí.
-Toma, estás a precisar.
Momento de profunda inspiração, seguida de expiração profunda. "Come as you are, as you were, as I want you to be", soa como ruído de fundo prazenteiro.O apocalipse está perto.
- A Terra vai explodir!!! A Terra vai explodir!!! I see dead people! I see dead people!
- You are the devil! Devil!
Uma noite quente pelos dias de Outubro, o céu estrelado bem visível de uma varanda. Uma tal combinação astrológica que indiciaria uma noite romântica a dois, um qualquer ele e uma qualquer ela abraçados a ver a Lua e as estrelas... Mas os astros enganaram a Terra, o clube da Ginja estava reunido. Copos partidos, alcool no chão, sopeiras feitas de papel, personagens do imaginário, um colchão insuflável e um cobertor... E olhos diabólicos!
O Bibi e a vítima encontram-se. O culpado nega a culpa, diz-se inocente, só lhe perguntou as horas... e qual era o melhor caminho. A vítima está perturbada, fala lentamente, tem frases desconexas. Acusa o Einstein de ter descoberto a gravidade, deixando o Newton às voltas com a maçã na tumba. Shakespeare é chamado à quadratura: Ser ou não ser, eis a questão! A advogada diz que a culpa é da sociedade, como quem nada aprendeu ao longo de cinco anos, como quem não se preocupa com o El Niño ou os incêncios ou o jornalismo tendencioso da TVI, como quem aceita o que está mal sem contestar. Uma leiga...
A causa desconhece-se e o processo será arquivado. Mas há factos: Gonçalo, o sentimentalão, discursa para a posteridade em frente a uma câmara. Fala da importância do amor, da vida, da amizade e daquele momento em particular. É O MOMENTO, a partilha de lágrimas e sorrisos, como se fossem siameses. É um momento catártico, acompanhado por todos que se unem com ele, no Nirvana.
Pedro é um Sting em Nova Iorque, um outsider com pensamentos abstractos. Critica as pré compreensões, as repressões, os rótulos a que chama, agressivamente, de estigmas.
- O problema está nas pré ideias que as pessoas fazem, n devia haver estigmas.
- As pré concepções são apenas a mente a trabalhar. Se és por natureza optimista vês o desconhecido com curiosidade, queres torná-lo conhecido. Se para ti o copo está sempre meio vazio, tens medo do desconhecido, partes do pressuposto que é mau. Ainda que aceites que pode não ser mau, o risco das consequências negativas é sempre maior que o proveito que pensas poder tirar caso tudo corra bem.
- Mas porque é que as pessoas não pensam sempre que pode ser bom o que não conhecem? Porque é que se afastam do que desconhecem?
- Está na natureza humana.
A miúda mantem-se invisível e deixa apenas o som invadir-lhe os sentidos. É nesse momento que ela repara que o céu está estrelado, mas até podia estar mexido! Um encanto de sintonia cósmica!
Tomás levanta-se para atender o telefone, é a mãe. Ele e a miúda deitam-se em cima da cama, ela filma aquilo que poderia ter sido um sketch humorístico, que depois vê transformado em registos de som, à la Branca de Neve. Perdem-se as expressões faciais e os olhares mortiços.
-Pois, pois é.
(mãe fala)
_ Pois, é isso. Achas que sim?
(mãe fala)
- Ah é?Realmente...
(mãe fala)
- Não, vou-me deitar.
Apenas a mente deturpada tem os registos gráficos.
A pedido dela deixam-se levar por Talamasca e uma bola de feira vertebrável e um cubano à mistura. Gonçalo deixa que a sua mente o conduza para o desconhecido que também ele temia, enquanto a miúda e Pedro se deitam a seu lado (lado, a lado, a lado). O som assemelha-se ao mais puro Mozart! Pedro acorda em sobressalto cheio de adrenalida desejando atirar-se da varanda onde estavam os quatro havia horas, sentia que não havia limites para ele, era imortal ou então lá em baixo estava uma rede que o iria amparar. Ja iria salvá-lo... A miúda acorda com as vibrações de energia negativa, e grita algo importante, mas ele não consegue ouvi-la. Ele deixa a casa ao abandono, foge, corre descendo as escadas, a porta fica aberta... Mas niguém se apercebe! Tomás entra noutro campo dimensional, a miúda e Gonçalo sentem-se a viajar lentamente e apercebem-se de Pedro que há muito corria em volta dos carros estacionados, como se fugisse de algo sem sair do sítio. Os pensamentos circulares transformam-se em passadas circulares. A miúda sente as suas costas algo afiado e ouve uma voz: isto é um assalto, se te mexes eu mato-te. Tomás nada viu, dormindo. Gonçalo distante no pensamento e também de costas observando Pedro nem repara na presença alheia. Ela não fala, não se mexe. Ele pede-lhe o dinheiro e ela não sabe onde está. Lembra-se subitamente que a porta está aberta e não sabe quantas pessoas estão em casa, pensa rápido mas o seu corpo está paralisado. A mente avança e o corpo não cumpre. Ela procura coragem, mas não encontra, sabe o que quer mas não sabe como fazê-lo. Ela tem noção de que ele vai falando em murmúrios junto ao seu ouvido mas não consegue fazer a tradução para uma frase, parecem somente palavras desconhecidas ditas rapidamente. O seu canal auditivo parece simplesmente receber o som supersónico emitido pelo pc. Repentinamente como que acordando de um momento de transe ela decide agir, e no momento olha à sua volta: Pedro continua a correr já bem mais longe, Gonçalo simplesmente fixou um ponto no céu, talvez uma estrela, e deixou-se por ali ficar. Por fim, olha para Tomás esperando vê-lo ainda dormindo, mas ele tinha os olhos abertos como se há muito tempo tivesse assistindo àquele espectáculo de terror. Mas não, ele estava apenas a tentar perceber quem era aquela pessoa, lançou-lhe um olhar calmo, como quem lhe diz que não se preocupasse, que ia ficar tudo bem. Numa perfeita sintonia de movimentos Tomás ergue-se e a miúda vira-se, o que pareceu assustar o intruso que ambos tentam imobilizar e a quem tentam retirar o objecto acutilante. O cretino safa-se, qual macaco saído da selva com agilidade inumana e sem palavras correm ambos atrás dele. Por esta altura já Pedro tencionava voltar acasa e está no momento a entrar no prédio, acaba por ser Pedro, quem sem saber de nada o detém, como se tivesse sabido desde sempre que estavam em perigo. Gonçalo, que entretanto voltara à realidade, já tinha chamado a polícia embora se mantivesse inerte na varanda entre os estilhaços de copos. Foram os heróis da noite!
Calmamente, mais acordado voltaram à varanda onde tudo tinha começado e quando o pânico passou resolveram brindar aos quatro e a Ja que os tinha salvo e que certamente estava entre eles, e como prova de honra repetiram o ritual de invocação desta vez em silêncio cada um consigo a ponderar a vida. Em conjunto fizeram uma daquelas promessas vãs de se tornarem melhores pessoas, mas acima de tudo de serem leais... Até começarem a pensar que a vida está mesmo por um fio muitas vezes e que vale a pena agarrá-la e ir sempre mais longe!
- Isso Shakespeare pensou, mas não disse. O que ele disse foi: Não há melhor remédio para o amor se não amar ainda mais!

9 Comments:
Mais uma vez confirmo o teu inusitado talento para a escrita ... se me permites uma pequena correcção, a última citação não é de Shakespeare, mas de Henry David Thoreau, filósofo e poeta americano do século passado! Continua o bom trabalho!
aix ganda moca :|
danny:mais uma vez obrigada por passares aki. ainda bem q corriges.ouvi essa frase pela 1ª x ha uma semana e axei lhe piada, mas vou dizer a kem me disse q ta enganado.alias, so mm tu p teres estas informações!
drainer: n te conheço, mas bem vindo a este espaço!
Sempre achei que o come as you are é a banda sonora perfeita para o apocalipse… Tem piada!
Di: vim ler isto no estado em que me aconselhaste (no mesmo em que tu estavas quando o escreves) e continuo a não perceber nada. Mas talvez já não esteja o suficiente... Ou se calhar sou um "menino muito especial" (pronunciar com voz de boca de lã e fazendo "aquela cena dos bracinhos")!
pombo:és o maior!!!!eu spr axei q nós nos compreendiamos, mto me espanta q n tenhas percebido nada!!!tlv n estejas mm o suficiente... Ou será que és dakeles meninos c dto a simbolo da cadeira de rodas no carro.
Já agora: BOCA DE LÃ???Q raio é isso??? Nós já exibimos o teu lado de menino especial xs sem conta, mas dái a xamar-lhe boca de lã...
Pensando bem, tu tás é demais!!!
Di:
Imagina um atrasado mental a falar. Fala tipo "Eu xou um 'enino 'uito espe'ial!", percebe-se mal, come consoantes, os sons saem distorcidos. Agora imagina como falarias se tiveres um novelo de lã enfiado na boca. Falarias assim também. Daí eu, num momento de moca, ter tido a ideia de chamar a esse fenómeno "boca de lã". Capisce?
Não era suposto haver uma actualização do blog? É que se crias espectativas assim às pessoas, qualquer dia és processada por todos aqueles que gostam de te ler!
That's a great story. Waiting for more. »
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