Mimi da minha vida
Hermano mergulha no sofá de couro com dez anos, que ainda conservava o cheiro a pele verdadeira, que ele tanto apreciava, liga a televisão e concentra-se em mais um episódio CSI Miami, ainda com as lágrimas a perturbarem-lhe a visão.
Cinquenta anos, é isto afinal! Mais de metade da vida sem ser vivida. Uma personalidade orgulhosa e calma, quase apática, era do que o acusava a ex-mulher e provavelmente as namoradas de quem não se lembra. Nunca tinha experimentado drogas, nem conduzido com os copos, nem tinha sido expulso de uma aula. A única coisa radical que tinha feito era ter aberto o primeiro bar existente na ilha de São Miguel. São Miguel estava já distante da sua mente. Inteligente e com queda para os números tinha ido para Lisboa estudar a engenharia civil e daí construído um modo de vida simpático, nem de mais, nem de menos. Hermano estava sempre no meio, afinal junto à virtude.
Cinquenta anos feitos, amigos presentes, é certo, mas a amizade aos cinquenta não é a amizade dos vinte. Uns casadíssimos que se negavam a ver a mentira em que viviam, mas ele não, ele conseguia estar sozinho, até porque aí o povo sempre tinha tido razão.
Cinquenta anos é uma boa meta, mas já dizia o Tó de São Miguel, um homem não devia passar dos quarenta. Hoje Hermano comparara um perfume, CK One, diziam que tinha um cheiro jovem, ele não gostava particularmente da acidez do aroma, mas a funcionária da perfumaria garantira-lhe que era jovem e ele ainda queria ser jovem, mesmo não o tendo sido quando o era.
Há uns tempos a filha, já criada, tinha-lhe perguntado porque é que agora ele usava camisolas de gola alta, e ele tinha respondido que mudara de opinião. E mudara, afinal essa é uma roupa jovem. Quando se é jovem não se pensa nisso.
Tinha casado com quem queria casar e tinha-se divorciado quando o desejara. Tinha tido os dois filhos desejados, criados por uma boa mãe e que não era má mulher, mas aos 30 quer-se tudo. Ele tinha tido tudo, sem aproveitar grande coisa.
Este era um ponto de viragem, pensava ele. Mas a apatia do costume impedia-o de se mexer do sofá onde agora estava submerso.
Intervalo do CSI, perfeito!
- Rosária, sou eu, o Hermano.
- Sim…
- Desculpa ligar a esta hora, precisava de falar contigo… com alguém. E és a única pessoa que tenho.
- Estás muito estranho… mas estou a ouvir-te.
- Olha, tu achas que eu sou má pessoa?
- Não, não acho. Mas de onde vem esta conversa agora?
- Estava aqui a pensar. Tenho cinquenta anos e…
- Oh Hermano, desculpa, esqueci me do dia dos teus anos. Desculpa. Sabes como é o trabalho, os miúdos…
- Não, não é nada disso. Quer dizer, não foi por isso que te liguei. Estava a pensar que tenho cinquenta anos e não tenho nada. Tenho uma casa e um carro, a minha empresa, dois filhos que não vi crescer, uma ex-mulher que já se casou com outro…
- Não vais recriminar-me outra vez pois não? Acho que já tivemos os nossos momentos de acusações mútuas, não achas? Foste tu quem quis o divórcio, não tenho a culpa de que te tenhas enganado.
- Eu não me enganei. Eu quis o divórcio e foi o melhor para nós. Nem eu o sabia no momento, mas tu sabes… eu não nasci para ser casado. Não é disso que queria falar-te… Eu queria só falar com alguém e na verdade tu és a mãe dos meus filhos, a única mulher que verdadeiramente amei e portanto a que melhor me conhece. Nunca deixei de estar sozinho mesmo estando contigo e sei que a culpa era minha e não era sequer uma culpa era só uma razão. Mas hoje eu gostava de ter alguém comigo, alguém, só alguém… Tu tens o Filipe, ele gosta de ti e trata-te bem, tens os nossos filhos que eu nunca soube compreender.
- Oh Hermano, mas tudo isso é assim há já tanto tempo, que é que se passa hoje?
- Nada, só gostava de ter por perto alguém. Não pedia uma mulher especialmente inteligente, especialmente bonita, especialmente bem sucedida, especialmente bem-falante, especialmente rica. Só alguém que aqui estivesse, para me por a mão no joelho e dizer que está tudo bem.
- E tu ias acreditar nisso? Que estava tudo bem?
- Não, o papel dessa mulher seria convencer-me disso…
- Espero que saibas que mais difícil de encontrar reunidas numa mulher todas as qualidades que referiste, é encontrar alguém no mundo, homem ou mulher, que te arranque da solidão em que te enfiaste. Não precisas de ninguém que te alegre, que te faça pensar positivo, tu és assim. As tuas angústias são as mesmas de sempre, e só hoje te dás conta delas porque até hoje andaste a escudá-las em problemas vários: ora o casamento, ora o divórcio, ora o casamento outra vez, ora os miúdos, ora a escola do Tito, ora a faculdade da Magui, ora o dinheiro, ora a casa, ora o carro. Hoje que nenhum desses problemas existe, a verdadeira questão veio à tona.
- Estás a ver, tu percebes-me. Tu podias ser a pessoa que me põe a mão no joelho e me diz que está tudo bem.
- Podia, mas não sou. Há muito tempo que nada nos une a não ser os miúdos e uma sólida amizade dos anos em comum, mas é só isso mesmo.
- Mas é mesmo só isso que eu procuro.
- Tu não podes estar bem…
- E não estou… Adeus Rosário…
- Hermano, relaxa. Olha, vê o CSI, já perdeste um episódio, mas vai dar outro. Isso vai distrair-te a cabeça.
- Sim, tens razão, ouviu-se Hermano dizer ao mesmo tempo que desligava a televisão.
Hermano pegou nas chaves e saiu de casa. No Champagne alguém lhe serviria uma bebida forte.
- Boa noite.
- Boa noite.
- Faça favor, a Mimi indica-lhe uma mesa. Mimi, indica uma mesa ao cavalheiro.
- Olá, eu sou a Mimi. Deseja tomar alguma coisa?
- Sim, escolha a Mimi.
Mas que raio, porque é que esta tipa há-de escolher o que eu vou beber, pensava Hermano, enquanto via Mimi avançar em direcção ao bar bamboleando as ancas. Há uns anos, não sairia daqui sem ti Mimi…
- Cavalheiro, aqui tem a sua bebida, especialmente para clientes especiais.
- Oh Mimi, mudei de ideias. Não quero a sua bebida. Diga-me lá uma coisa, quanto recebe por um privado?
- Desculpe? Eu não faço privados!
- Deixe-se de coisas. Responda-me.
- Depende, mas certamente que para cavalheiros rudes o preço aumenta, afirmava Mimi, enquanto se sentia atravessada pelo olhar cortante do gerente que se tinha apercebido do mau ambiente e a passos largos vinha até eles.
-Cavalheiro, há algum problema? Aqui a Mimi, às vezes é um bocadinho insubordinada.
- Nada, nada.
- Se precisar de alguma coisa faça o favor de dizer.
- Hum, hum.
-Então Mimi. Pago-lhe 500 euro para mandar a sua coleguinha trazer-me um Porto e ficar aqui a conversar comigo. Para me dizer que está tudo bem…
Enquanto o Porto era encomendado e a raiva de Mimi surgia em crescendo na sua face ruborizada, Hermano continuava… reparou que lhe disse quinhentos euro?
- Sim, afirmava Mimai sem saber onde este tarado pretendia chegar.
- Sabe, Mimi, as unidades de medida não têm plural, tal como a moeda. Deveríamos sempre dizer: cinco quilómetro em português correcto. Claro que se eu disser isto numa reunião de negócios sem explicar porquê me tomam por patego em vez de erudito. Por isso digo-lho a si, pode ser que passe a mensagem.
Quando Hermano terminava frase apercebe-se de que Mimi está impaciente e pensa que esta é mais uma sem vontade de o perceber. Ele também não quer quem o perceba…
- Mimi, quer casar-se comigo? Viver comigo?
- Desculpe, mas o cavalheiro deve ter bebido demais, vou chamar-lhe um táxi.
- Não Mimi, eu não preciso de um táxi, preciso de alguém que me diga que está tudo bem, percebe?
- Sim, dizia Mimi, enquanto pensava no oposto.
Olhe, continuava ela, tenho aqui uma coisa que o vai animar, enquanto tirava da sua bolsinha um espelho de maquilhagem, um saquinho verde, uma tampa de uma Molin e o cartão de entrada no Champagne.
- Eu não tomo drogas Mimi.
- Mas hoje vai tomar, uma vez não são vezes.
- Eu nunca tomei nada.
- Hoje é o seu dia, a seguir não vai precisar que ninguém lhe diga que está tudo bem, porque verá que está mesmo.
Hermano retraído e sem jeito, temendo fazer má figura, lá inspirou por dentro da tampa Molin, sem que o corpo tivesse reagido grandemente e sob o olhar expectante de Mimi, que lhe punha gentilmente a mão no joelho e dizia: já vai ficar tudo bem…
Aquele gesto e aquela frase a que Mimi não dera a menor importância despertaram os sinos cerebrais de Hermano, que ouvira o que queria ouvir de forma espontânea.
- Mimi, aqui estão os quinhentos euros, perdão, os quinhentos euro, que lhe prometi em troca dessa frase. Está dispensada da minha companhia.
- Cavalheiro, eu não o disse pelos…
- Sim, pois, eu sei. Mas vá, vá à sua vida.
- Mimi agarra os quinhentos como se fossem a própria vida e some-se no escuro das cortinas aveludadas, perturbada, acende um cigarro longe das vistas curiosas dos clientes habituados a vê-la sempre sorridente e com bom astral.
Hermano beberica o seu Porto com um sorriso nos lábios na convicção de que aquele momento mudara a sua vida e que no dia seguinte estaria tão feliz como naquele momento em que nem estava com os copos. Calmamente, como era seu timbre, liberta o cadeirão e sai deixando um sorriso largo ao porteiro. Entra no seu Golf preto, TDI, não era um qualquer, e depois de uma operação STOP, chega a casa… Jerry Seinfeld, grita na Sic Comédia: “No more soup for you!”, enquanto o episódio se despede e Hermano, apesar disso, satisfeito porque vai ficar tudo bem, se entrega ao MTV Live, para uma noite de eighties by himself…
Cinquenta anos, é isto afinal! Mais de metade da vida sem ser vivida. Uma personalidade orgulhosa e calma, quase apática, era do que o acusava a ex-mulher e provavelmente as namoradas de quem não se lembra. Nunca tinha experimentado drogas, nem conduzido com os copos, nem tinha sido expulso de uma aula. A única coisa radical que tinha feito era ter aberto o primeiro bar existente na ilha de São Miguel. São Miguel estava já distante da sua mente. Inteligente e com queda para os números tinha ido para Lisboa estudar a engenharia civil e daí construído um modo de vida simpático, nem de mais, nem de menos. Hermano estava sempre no meio, afinal junto à virtude.
Cinquenta anos feitos, amigos presentes, é certo, mas a amizade aos cinquenta não é a amizade dos vinte. Uns casadíssimos que se negavam a ver a mentira em que viviam, mas ele não, ele conseguia estar sozinho, até porque aí o povo sempre tinha tido razão.
Cinquenta anos é uma boa meta, mas já dizia o Tó de São Miguel, um homem não devia passar dos quarenta. Hoje Hermano comparara um perfume, CK One, diziam que tinha um cheiro jovem, ele não gostava particularmente da acidez do aroma, mas a funcionária da perfumaria garantira-lhe que era jovem e ele ainda queria ser jovem, mesmo não o tendo sido quando o era.
Há uns tempos a filha, já criada, tinha-lhe perguntado porque é que agora ele usava camisolas de gola alta, e ele tinha respondido que mudara de opinião. E mudara, afinal essa é uma roupa jovem. Quando se é jovem não se pensa nisso.
Tinha casado com quem queria casar e tinha-se divorciado quando o desejara. Tinha tido os dois filhos desejados, criados por uma boa mãe e que não era má mulher, mas aos 30 quer-se tudo. Ele tinha tido tudo, sem aproveitar grande coisa.
Este era um ponto de viragem, pensava ele. Mas a apatia do costume impedia-o de se mexer do sofá onde agora estava submerso.
Intervalo do CSI, perfeito!
- Rosária, sou eu, o Hermano.
- Sim…
- Desculpa ligar a esta hora, precisava de falar contigo… com alguém. E és a única pessoa que tenho.
- Estás muito estranho… mas estou a ouvir-te.
- Olha, tu achas que eu sou má pessoa?
- Não, não acho. Mas de onde vem esta conversa agora?
- Estava aqui a pensar. Tenho cinquenta anos e…
- Oh Hermano, desculpa, esqueci me do dia dos teus anos. Desculpa. Sabes como é o trabalho, os miúdos…
- Não, não é nada disso. Quer dizer, não foi por isso que te liguei. Estava a pensar que tenho cinquenta anos e não tenho nada. Tenho uma casa e um carro, a minha empresa, dois filhos que não vi crescer, uma ex-mulher que já se casou com outro…
- Não vais recriminar-me outra vez pois não? Acho que já tivemos os nossos momentos de acusações mútuas, não achas? Foste tu quem quis o divórcio, não tenho a culpa de que te tenhas enganado.
- Eu não me enganei. Eu quis o divórcio e foi o melhor para nós. Nem eu o sabia no momento, mas tu sabes… eu não nasci para ser casado. Não é disso que queria falar-te… Eu queria só falar com alguém e na verdade tu és a mãe dos meus filhos, a única mulher que verdadeiramente amei e portanto a que melhor me conhece. Nunca deixei de estar sozinho mesmo estando contigo e sei que a culpa era minha e não era sequer uma culpa era só uma razão. Mas hoje eu gostava de ter alguém comigo, alguém, só alguém… Tu tens o Filipe, ele gosta de ti e trata-te bem, tens os nossos filhos que eu nunca soube compreender.
- Oh Hermano, mas tudo isso é assim há já tanto tempo, que é que se passa hoje?
- Nada, só gostava de ter por perto alguém. Não pedia uma mulher especialmente inteligente, especialmente bonita, especialmente bem sucedida, especialmente bem-falante, especialmente rica. Só alguém que aqui estivesse, para me por a mão no joelho e dizer que está tudo bem.
- E tu ias acreditar nisso? Que estava tudo bem?
- Não, o papel dessa mulher seria convencer-me disso…
- Espero que saibas que mais difícil de encontrar reunidas numa mulher todas as qualidades que referiste, é encontrar alguém no mundo, homem ou mulher, que te arranque da solidão em que te enfiaste. Não precisas de ninguém que te alegre, que te faça pensar positivo, tu és assim. As tuas angústias são as mesmas de sempre, e só hoje te dás conta delas porque até hoje andaste a escudá-las em problemas vários: ora o casamento, ora o divórcio, ora o casamento outra vez, ora os miúdos, ora a escola do Tito, ora a faculdade da Magui, ora o dinheiro, ora a casa, ora o carro. Hoje que nenhum desses problemas existe, a verdadeira questão veio à tona.
- Estás a ver, tu percebes-me. Tu podias ser a pessoa que me põe a mão no joelho e me diz que está tudo bem.
- Podia, mas não sou. Há muito tempo que nada nos une a não ser os miúdos e uma sólida amizade dos anos em comum, mas é só isso mesmo.
- Mas é mesmo só isso que eu procuro.
- Tu não podes estar bem…
- E não estou… Adeus Rosário…
- Hermano, relaxa. Olha, vê o CSI, já perdeste um episódio, mas vai dar outro. Isso vai distrair-te a cabeça.
- Sim, tens razão, ouviu-se Hermano dizer ao mesmo tempo que desligava a televisão.
Hermano pegou nas chaves e saiu de casa. No Champagne alguém lhe serviria uma bebida forte.
- Boa noite.
- Boa noite.
- Faça favor, a Mimi indica-lhe uma mesa. Mimi, indica uma mesa ao cavalheiro.
- Olá, eu sou a Mimi. Deseja tomar alguma coisa?
- Sim, escolha a Mimi.
Mas que raio, porque é que esta tipa há-de escolher o que eu vou beber, pensava Hermano, enquanto via Mimi avançar em direcção ao bar bamboleando as ancas. Há uns anos, não sairia daqui sem ti Mimi…
- Cavalheiro, aqui tem a sua bebida, especialmente para clientes especiais.
- Oh Mimi, mudei de ideias. Não quero a sua bebida. Diga-me lá uma coisa, quanto recebe por um privado?
- Desculpe? Eu não faço privados!
- Deixe-se de coisas. Responda-me.
- Depende, mas certamente que para cavalheiros rudes o preço aumenta, afirmava Mimi, enquanto se sentia atravessada pelo olhar cortante do gerente que se tinha apercebido do mau ambiente e a passos largos vinha até eles.
-Cavalheiro, há algum problema? Aqui a Mimi, às vezes é um bocadinho insubordinada.
- Nada, nada.
- Se precisar de alguma coisa faça o favor de dizer.
- Hum, hum.
-Então Mimi. Pago-lhe 500 euro para mandar a sua coleguinha trazer-me um Porto e ficar aqui a conversar comigo. Para me dizer que está tudo bem…
Enquanto o Porto era encomendado e a raiva de Mimi surgia em crescendo na sua face ruborizada, Hermano continuava… reparou que lhe disse quinhentos euro?
- Sim, afirmava Mimai sem saber onde este tarado pretendia chegar.
- Sabe, Mimi, as unidades de medida não têm plural, tal como a moeda. Deveríamos sempre dizer: cinco quilómetro em português correcto. Claro que se eu disser isto numa reunião de negócios sem explicar porquê me tomam por patego em vez de erudito. Por isso digo-lho a si, pode ser que passe a mensagem.
Quando Hermano terminava frase apercebe-se de que Mimi está impaciente e pensa que esta é mais uma sem vontade de o perceber. Ele também não quer quem o perceba…
- Mimi, quer casar-se comigo? Viver comigo?
- Desculpe, mas o cavalheiro deve ter bebido demais, vou chamar-lhe um táxi.
- Não Mimi, eu não preciso de um táxi, preciso de alguém que me diga que está tudo bem, percebe?
- Sim, dizia Mimi, enquanto pensava no oposto.
Olhe, continuava ela, tenho aqui uma coisa que o vai animar, enquanto tirava da sua bolsinha um espelho de maquilhagem, um saquinho verde, uma tampa de uma Molin e o cartão de entrada no Champagne.
- Eu não tomo drogas Mimi.
- Mas hoje vai tomar, uma vez não são vezes.
- Eu nunca tomei nada.
- Hoje é o seu dia, a seguir não vai precisar que ninguém lhe diga que está tudo bem, porque verá que está mesmo.
Hermano retraído e sem jeito, temendo fazer má figura, lá inspirou por dentro da tampa Molin, sem que o corpo tivesse reagido grandemente e sob o olhar expectante de Mimi, que lhe punha gentilmente a mão no joelho e dizia: já vai ficar tudo bem…
Aquele gesto e aquela frase a que Mimi não dera a menor importância despertaram os sinos cerebrais de Hermano, que ouvira o que queria ouvir de forma espontânea.
- Mimi, aqui estão os quinhentos euros, perdão, os quinhentos euro, que lhe prometi em troca dessa frase. Está dispensada da minha companhia.
- Cavalheiro, eu não o disse pelos…
- Sim, pois, eu sei. Mas vá, vá à sua vida.
- Mimi agarra os quinhentos como se fossem a própria vida e some-se no escuro das cortinas aveludadas, perturbada, acende um cigarro longe das vistas curiosas dos clientes habituados a vê-la sempre sorridente e com bom astral.
Hermano beberica o seu Porto com um sorriso nos lábios na convicção de que aquele momento mudara a sua vida e que no dia seguinte estaria tão feliz como naquele momento em que nem estava com os copos. Calmamente, como era seu timbre, liberta o cadeirão e sai deixando um sorriso largo ao porteiro. Entra no seu Golf preto, TDI, não era um qualquer, e depois de uma operação STOP, chega a casa… Jerry Seinfeld, grita na Sic Comédia: “No more soup for you!”, enquanto o episódio se despede e Hermano, apesar disso, satisfeito porque vai ficar tudo bem, se entrega ao MTV Live, para uma noite de eighties by himself…

4 Comments:
DiDuarte de volta às lides bloguistas! :))
E sabia que ganhou um prémio?
Adorei a referência ao Soup Nazi do Seinfeld e vejo que dominas bem o espaço do Champagne... visitas de estudo ou andas à procura do teu Mimi? ;)
Sim, sabia que tinha ganho um prémio há ja muito tempo! Curiosamente nunca fui ao Champagne, mas conheço quem lá tenha ido... e tu também!
Agradeço a presença a ssídua mais uma vez!
Que delicioso regresso à blogosfera... Adorei o texto, cheio de vida e sentimento, muitíssimo bem escrito, cheio de conteúdo e conteúdos, absorvente, dinâmico, com um tom de tristeza latente e uma espécie de tragédia final, talvez não, não se sabe, afinal talvez seja só uma experiência em falta e não tanto um novo caminho. Uma certa nostalgia sentimental, a idade realmente nunca volta para trás, talvez a vida devesse ser como o provérbio, não vivas amanhã aquilo que podes viver hoje, ou talvez uma reformulação dos Rádio Macau, ontem foi sempre longe demais, enfim, devaneios, a verdade é que o teu texto põe-nos a pensar em algumas coisas. E que melhor coisa poderia ele nos fazer?
Um grande beijinho, gostei mesmo muito, fico à espera do resto, não demores, não, não nos faças tal desfeita, escreve mais, já amanhã, vá lá, por favor...
ja venho um bokadinho tarde, mas antes tardando que nunca chegando... por isso fica um gigante muito obrigado e algums surpresa por tamanho elogio não esperado (daí a surpresa LOL).e também um grnade beijinho p o melhor namorado do mundo!
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