Saturday, November 11, 2006

Desconcertante Colunável

Ao contrário das bonitas historietas de amor, estes dois só se cruzam porque desviam a sina. Aliás, se há uma bifurcação ela sempre irá para a esquerda e ele para a direita; se há um lugar à sombra e um lugar ao sol, ela sempre desejará a sombra e ele o sol; se é preciso optar entre o IP e a auto-estrada, ela quer o IP e ele a auto-estrada; se a escolha é praia ou campo, ela clama pela praia e ele pelo campo.

- Frederica - dirige-se-lhe Inês - acabo de ver o Berto!
- A sério? Merda!
- Ele não me pareceu surpreendido por me ver.
- É natural, afinal foi por isso que ele cá veio, não é? O grave disto é que ele vai pensar que vim ter com ele depois daquela conversa ao telefone, mas pior, ele vai agir como se nos tivéssemos encontrado por acaso, vai mencionar isso mesmo, mas plenamente convicto de vim aqui ter com ele e por isso não terei hipótese de dizer que nós já cá estávamos, até porque vou parecer uma adolescente que não quer admitir a paixoneta pelo miúdo mais giro da turma. Devia ter-lhe dito que nós estávamos no Condestável quando ele me ligou…

O menu jurídico à sua frente provoca-lhe um ligeiro sorriso pela sua própria piada não partilhada: das Águas, dos Espumantes, das Cervejas, das Cervejas sem álcool, dos Licores.

- Indecisa?
- Hum… Não… Sim… Bom… Olá Berto!
- Já viste… o destino sempre a unir-nos.
- Pois - responde uma Frederica pouco atenta à sua própria resposta, mas sem desejar prender-se naquelas coordenadas - Então e novidades, desde há bocado?
- Comprei um carro!
- Ah, sim… Nas últimas cinco horas?
- Estava indeciso entre o mini e o 307. O mini é um carro cheio de personalidade, mas tem tanto disso que me cansou antes de ser meu. O 307, enfim, carimba-nos logo com aquele ar de macho do tunning, que não me agrada, mas, olha, se fosse mulher era bem pior, é que numa mulher um 307 quer sempre dizer: “Eu ando na noite!”. No fim optei pelo Mercedes Classe A.
- Pois, fizeste bem - afirmou uma Frederica quase honesta, como se não pensasse que Berto tinha comprado uma carapaça de tartaruga com rodas.
- Mas e tu, o que achas do Colunável?
- Nada, não acho nada. Acho que te devias ir embora, acho que não devias ter vindo, acho que isto não é justo para ninguém e acho que também já te tinha dito que esta relação-iogurte já tinha passado da validade. Agora aproveito e digo-te também que está azeda! – é o que lhe responde uma Frederica, tão surpreendentemente para ele como para ela, assumindo o papel da personagem desconcertante:
- Oh, minha querida Frederica, de onde vem tudo isso? Nós estamos apaixonados, ou estou enganado? - interroga-a Berto enquanto lhe faz uma festa no pescoço, da qual ela parecia estar à espera.
- Não, Berto, começa ela pausadamente, eu não vou ser a outra o resto da vida. Não vou dizer que foi um erro, mas que começa a sê-lo.
- Mas sabes que eu não posso deixar a Pati, ela é a minha Branca de Neve.
- E eu devo ser o anão Rezingão, ou serei a Bruxa má? Queres um conselho? Toma conta das maçãs!

Do you think I’m sexy? Do you think I’m sexy?” grita ardentemente a engenhoca tecnológica de ponta de Berto, que enquanto se afasta deixa cair um: “Espera um bocadinho que eu volto já.” “Não é preciso”, grita-lhe uma Frederica irritada com a displicência, enquanto deambula interiormente numa comparação entre o quadro azul à sua frente e o seu estado emocional, “Aquilo podia ser a minha fotografia emocional, se não fosse azul. As minhas emoções oscilam num fundo entre o amarelo, o laranja e o castanho, quentes mas sem ser em brasa, mornas, são mornas. O quase-círculo branco, podia ser o epicentro emocional, de onde brotam ideias hesitantes sem destino, das quais muitas aterram em terra de ninguém.”

- Whisky, com gelo, se faz favor.

- Onde é que nós íamos, minha querida?
- Na parte em que tu e a Pati eram felizes para sempre na vossa casa de bonecas cor-de-rosa para onde tu vais voltar agora.
- Oh… Não me vais fazer essa desfeita, pois não? Vim aqui para te ver!
- Mas eu não quero! Parece que tens dupla personalidade? Afinal com quem é que eu tive aquela conversa? Com o teu irmão gémeo?
- Ah… Mas eu não aceito o fim! Olha, vamos lá fora! Vi um sítio perfeito para estarmos os dois!
- Não percebes mesmo…
- Claro que percebo!
- Óptimo, então…
- Anda comigo! Vem!
- Desisto!


- Berto, acorda!
- Bom dia, boneca!
- Acorda rápido, precisamos de falar, muito a sério.
- Ok, vamos lá então. Adoro quando falas a sério…
- Isto tem de ter um fim. Já sabemos que não vamos sair deste pesadelo. Esta tem de ser a nossa despedida. Não posso investir num fundo perdido! Esta relação não vai evoluir e não vejo nenhuma razão para investir numa coisa que vou perder. É como dizia a minha avó, quem aposta sabendo que ganha é ladrão, quem aposta sabendo que perde é estúpido. E eu não quero ser estúpida.
- Sim, tens razão. Estou a ser egoísta, não posso querer-te só para mim.
- Não desconverses, sabes bem que a questão não é essa.
- Olho para nós e vejo-nos há dez anos, vejo-te como a minha menina de há dez anos atrás! E és tu!
- Tu estás a reviver esse filme e o problema é esse mesmo. Estás a viver na tua imaginação um passado, que não é o presente, mas ages como se fosse. Acabou o “Alf”, começou o "Family Ties". Eu já não fumo cigarros escondida atrás de um carro, já não precisas de me ensinar como se pede um safari-cola sem ter ar de menina, eu bebo o meu próprio whisky e, adivinha, até sei que gosto do irlandês e não do americano. Não podes reaparecer com o anelar enfeitado e dizer: aqui estou eu como dantes.
- Mas tu sabes que eu sempre estive apaixonado por ti.
- Deve ter sido por isso que te casaste. A sério, eu não te censuro o casamento ou a Pati. Poderia ter feito o mesmo, mas não estaria aqui se o tivesse feito. Censuro a tua falta de honestidade contigo mesmo. Arranjaste uma boa justificação para conseguires para encarar o espelho, que te liberta das correntes da consciência. E por isto tudo eu tenho de ir… Diz-me que me percebes, que concordas comigo, que vais cumprir…
- Sim, sim e sim.

- Inês, vamos beber qualquer coisa?
- Daqui a meia hora no Colunável.

Já no azulado Colunável, Frederica espera Inês. Uma Frederica aliviada por finalmente ter deitado fora o iogurte azedo enfrenta a luz branca do telemóvel exibindo a negro a mesma palavra das últimas vezes:

“BERTO”

Antes de atender Frederica ainda teve tempo de desabafar um: “Estás a ver, é isto! Ainda hoje falei com ele!” com Inês.

- Olá Boneca! Onde páras?
- Em nenhures. Pensava que ainda hoje tínhamos combinado que…
- Espera, está aqui a policia, não desligues.

“BERTO”
Chamada desligada

“BERTO”
“BERTO”
“BERTO”
3 chamadas não atendidas

“BERTO”

- Boneca, então, não querias falar comigo? Desculpa ter desligado, mas…
- Sim, já sei, Berto, a policia.
- Exacto. Bom ia convidar-te…
- Convidar-me??? Nós falámos há três horas e tu estás a convidar-me???
- Que tal um bom vinho e um prato de queijos?
- Devemos ter as linhas trocadas, porque a nossa conversa não é a mesma.
- Queijos num recanto da Lisboa antiga. Romântica Graça… que me dizes?
- Não vai dar.
- Amanhã?
- Beeeerto! Chega! Estás a gozar comigo?
- Tu sabes que não, sabes que eu preciso de te ver e que não posso estar sem ti. Desculpa-me Boneca. A sério, deixa-me pedir-te desculpa.
- Não há aqui nada para desculpar.
- Anda lá! Vai ficar tudo bem!
- Mas é isso mesmo que não pode ser. Não pode haver nada, nem bem nem mal. Será que a nossa conversa foi um sonho?
- Vemo-nos no Colunável.

“BERTO”
Chamada desligada

1 mensagem recebida
“BERTO”
Não te vou deixar fugir, Boneca!

6 Comments:

Blogger J. Spy-na said...

Primeiro...como miudo mais giro das tuas turmas.. ahaha (nada convencido!)
Nah! :) Gostei das tuas referências a cultura pop, aliás, a forma como as utilizas facilita a compreensão de uma ideia (clever).
Era capaz de "name drop" varias pessoas que vivem um tipo de relaçao como esta, por mais "estapafurdia" que pareça. Apesar das muitas diferenças ha sempre aquele imán que puxa e não repele...

ah! a troça ao carro do tuning fez-me vibrar, lol

Então...vemo-nos no Colunável

10:32 AM  
Blogger HaAs JaGeR said...

Personagem detestável, esse Berto, talvez Alberto, Rigoberto ou Adalberto, pessoa sem amor por quem o ama, mau exemplo para a irmandade masculina. Esse Umberto ou Humberto talvez, aproveita-se da fraqueza da pobre Frederica e saciando as suas pouco nobres vontades impede-a de seguir o seu próprio caminho, o da busca da sua felicidade. Assim é a vida, feita de fortes e de fracos, mal estamos quando o forte é pior que o fraco e se aproveita dele... Que seja este texto uma fonte de força para todos aqueles que, enfraquecidaos na sua própria dignidade, se contentam com as sobras do mundo e se esquecem de que a felicidade está no prato principal... Gostei muito! Beijinho graaaaaaande...

4:47 AM  
Anonymous Andreia said...

Uma preciosidade literária e não só......
Uma realidade vivida por alguns, que por vezes são intitulados de fracos de espírito, por não terem forças para assumir que não querem uma relação auto-destrutiva, mas que por vezes são presos por uma teia da qual não conseguem escapar sozinhos...que tem que ser o outro lado a ceder.
Esta história representa principalmente isso.
As referências a nossa cultura, os carros, o wisky, o comentário sexista, o sítio do costume para se sair, muito bem enquadrados numa história de locos mas real....Real por que todos os comentários, todos os promenores dão-lhe vida
Um espelho do que se vive...

Pena que só te lembres de histórias com um final triste...que tal uma coisa animada???

Beijos e está descansada que vou dando notícias por aqui

7:01 AM  
Blogger DiDuarte said...

eu q era a miuda mais espera da turma (eheheh) sei fazer estas coisas :P
Axo que eu gosto mais do Berto q qq um de vós, eu axo q ele é verdadeiramente desconcertante e n necessaria/ maldoso ou mesquinho...Axo q há historias de vida bem parecidas com esta mas cm um diferença que transforma as personagens de desconcertantes em odiados, mas esses são os q enganam, inventam, criam ilusoes. O Berto não faz nada disso, ele é desconcertantemente transparente.

Qt à coisa animada, é verdade q estes mais recentes têm sido mais tristes, mas há uns com bons fins e mto cor-de-rosa lá para trás... Obrigada por passares!

2:46 AM  
Anonymous Sofia said...

E se ele comprasse um jipe em vez de um classe A (tartaruga?! não me vou esquecer dessa...)?
E se o colunável se chamasse amo-te meco?
E se o Berto não se tivesse casado com a Pati?
E se o Berto não se chamasse Berto, mas António, Joaquim, Tiago ou Sérgio?
E se, em vez de encontrar a polícia, ele tivesse tido um acidente?

Essa Frederica parece-me ser a rainha do drama... conheço algumas assim como ela.

Gostei, faz-me lembrar coisas boas e, em simultâneo, coisa más...

5:58 AM  
Anonymous Andreia said...

Em resposta ao
"eu q era a miuda mais espera da turma (eheheh) sei fazer estas coisas :P"

A mim não me parece q fosses...mas todas as pessoas têm direito a opinião.....
Alguns vivem é na ilusão da certeza.....
lol

Beijos
(claro que estou no gozo)

7:26 AM  

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